Super El Niño pode elevar casos de dengue no Sul do Brasil em 2027, aponta Fiocruz
08 de novembro de 2026
A possível ocorrência de um super El Niño durante o verão de 2027 pode aumentar o risco de dengue na região Sul do Brasil. A avaliação faz parte de novas projeções divulgadas na sexta-feira (6) pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que apontam para aproximadamente 866 mil casos prováveis da doença no país na próxima temporada. Os pesquisadores, no entanto, destacam que ainda existem incertezas sobre a intensidade dos efeitos do fenômeno climático.
A estimativa principal indica um cenário semelhante ao observado em 2025 e 2026, sem previsão de uma epidemia nacional nas proporções da registrada em 2024. Entretanto, esse cálculo não considera diretamente os possíveis impactos do El Niño sobre a circulação da dengue.
Para avaliar a influência das condições climáticas, os cientistas desenvolveram análises complementares. Os resultados apresentaram diferenças entre as regiões brasileiras, com projeções de aumento dos casos em determinadas localidades e efeitos menos expressivos em outras.
Região Sul apresenta maior sinal de alerta
Entre as regiões analisadas, o Sul apresentou resultados mais consistentes de aumento dos casos nos modelos que incorporam os possíveis efeitos do El Niño.
Isso significa que, caso o fenômeno climático se confirme com a intensidade prevista, estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná poderão enfrentar condições mais favoráveis à transmissão da dengue.
Nas demais regiões do país, os modelos apresentaram resultados menos uniformes, dificultando a definição de uma tendência.
O El Niño ocorre quando há aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, provocando alterações nos padrões de temperatura e precipitação em diferentes partes do planeta.
No Brasil, essas mudanças podem influenciar a ocorrência de chuvas e períodos de calor, fatores que, dependendo das condições locais, favorecem a reprodução do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, zika e chikungunya.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que o clima não é o único fator responsável pelo aumento da doença. A circulação do vírus, a quantidade de pessoas suscetíveis à infecção e as medidas de prevenção também interferem diretamente no número de casos.
Brasil pode registrar entre 560 mil e 1,6 milhão de casos
As projeções foram elaboradas a partir de 22 modelos desenvolvidos por mais de 130 pesquisadores de oito países.
Em vez de utilizar apenas uma estimativa, os cientistas combinaram os resultados dos diferentes modelos para obter uma previsão considerada mais robusta.
O cenário central aponta para aproximadamente 866 mil casos prováveis de dengue em 2027.
Entretanto, a margem de incerteza é significativa. Segundo a Fiocruz, existe uma probabilidade de 80% de que o total nacional fique entre 560 mil e 1,6 milhão de casos.
O pico de transmissão é esperado para abril, quando o Brasil poderá registrar cerca de 40 mil casos em uma única semana.
Apesar de a estimativa principal indicar números inferiores aos observados durante a epidemia de 2024, os especialistas alertam que o cenário exige preparação dos serviços de saúde.
Paraná está entre os estados com previsão de aumento
Além dos possíveis efeitos do El Niño na região Sul, os modelos identificaram tendência de crescimento dos casos em alguns estados na comparação com a temporada anterior.
Entre eles estão Paraná, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Sergipe, Acre e Minas Gerais.
A inclusão do Paraná reforça a preocupação com o comportamento da doença no Sul do país, especialmente diante da possibilidade de alterações nas condições de temperatura e chuva.
Para o Rio Grande do Sul, os dados apresentados não estabelecem uma quantidade específica de casos, mas indicam a necessidade de acompanhar a evolução das condições climáticas e epidemiológicas.
Fiocruz recomenda intensificar ações de prevenção
A pesquisadora Claudia Codeço, coordenadora do InfoDengue, destaca que as projeções devem ser utilizadas como ferramenta de planejamento para os serviços públicos de saúde.
“A dengue continuará exigindo atenção. É o momento de organizar a rede e intensificar a prevenção”, afirmou em comunicado.
Segundo os pesquisadores, o possível super El Niño deve ser interpretado como um sinal de alerta, e não como uma garantia de aumento dos casos.
A prevenção continua sendo uma das principais medidas para reduzir a transmissão da doença, especialmente por meio da eliminação de recipientes que acumulam água e podem servir de criadouros para o mosquito.
O monitoramento epidemiológico, a identificação precoce dos casos e a preparação das equipes de saúde também são considerados fundamentais para enfrentar a próxima temporada.
Fonte: Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com informações das projeções do InfoDengue.