Físico que identificou acidente com césio-137 revela o que é verdade e ficção em série da Netflix
07 de novembro de 2026
Quase 40 anos após o acidente com césio-137 em Goiânia, o físico Walter Mendes Ferreira, um dos primeiros especialistas a identificar a contaminação radioativa em 1987, voltou a compartilhar sua experiência durante uma palestra em Porto Alegre. O encontro, realizado na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), abordou os acontecimentos que inspiraram a série Emergência Radioativa, lançada pela Netflix em março de 2026.
Atualmente chefe da Divisão de Emergências Radiológicas da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Ferreira participou da Jornada Acadêmica do curso de Física Médica da universidade, com a palestra A Ciência por Trás da Série da Netflix.
Durante a apresentação, o cientista relembrou os primeiros momentos da investigação que revelou a gravidade do acidente, considerado o maior desastre radiológico do mundo fora de uma instalação nuclear.
Equipamentos indicaram níveis extremos de radiação
Em setembro de 1987, moradores de Goiânia começaram a procurar atendimento médico apresentando sintomas como náuseas, tonturas e queimaduras, sem que inicialmente houvesse uma explicação para os casos.
Walter Mendes Ferreira estava na cidade visitando familiares quando foi chamado para investigar a situação.
Ao se aproximar da Vigilância Sanitária com um detector de radiação, percebeu que o equipamento apresentava leituras acima de sua capacidade de medição.
“Achei que o equipamento estava com defeito, porque não conseguia medir. Eu estava a uns 60 metros da Vigilância, e começou a saturar a medida”, recordou.
Inicialmente, o físico considerou a possibilidade de uma falha técnica. Entretanto, ao substituir o detector e obter o mesmo resultado, constatou que estava diante de níveis extremamente elevados de radiação.
A investigação identificou a presença de césio-137, uma substância radioativa retirada de um equipamento de radioterapia abandonado.
O material havia sido encontrado por catadores e vendido a um ferro-velho. Dentro do aparelho, havia pouco mais de 29 gramas de uma substância que emitia um brilho incomum e despertou a curiosidade das pessoas que tiveram contato com ela.
A dispersão do material provocou uma emergência de grandes proporções, exigindo o isolamento de ruas, a demolição de imóveis e a realização de exames em parte da população.
A operação também resultou na coleta de aproximadamente 6 mil toneladas de rejeitos contaminados, posteriormente armazenados em estruturas especiais.
Série da Netflix mistura acontecimentos reais e adaptações
Lançada em março de 2026, a minissérie Emergência Radioativa levou a história do acidente de Goiânia a uma nova geração de espectadores.
A produção alcançou o primeiro lugar no ranking mundial da Netflix entre as obras de língua não inglesa durante sua segunda semana de exibição, com aproximadamente 7 milhões de visualizações.
Na avaliação de Walter Mendes Ferreira, a série apresenta os principais acontecimentos de maneira fiel, embora algumas situações tenham sido adaptadas para a dramaturgia.
O personagem Márcio, interpretado pelo ator Johnny Massaro, foi inspirado no físico, mas também reúne experiências vividas por outros profissionais que participaram da operação.
“Não fui contaminado, o cachorro não me mordeu e minha esposa, até estava grávida, mas não perdeu o bebê. Ela tem uma certa dramaturgia, mas a série retrata fielmente o acidente de Goiânia”, explicou.
Segundo o cientista, mesmo algumas cenas que não aconteceram diretamente com ele foram baseadas em situações reais vividas durante a emergência.
A produção foi criada pelo cineasta brasileiro Gustavo Lipsztein, que entrevistou profissionais envolvidos no acidente para desenvolver o roteiro.
Tragédia mudou protocolos de segurança em diferentes países
Além das consequências humanas e ambientais, o acidente com césio-137 provocou mudanças importantes nos procedimentos internacionais de resposta a emergências radiológicas.
Segundo Ferreira, a experiência de Goiânia contribuiu para a criação e revisão de protocolos de atendimento médico, monitoramento ambiental, segurança radiológica e atuação integrada entre diferentes instituições.
Profissionais brasileiros trabalharam ao lado de especialistas de outros países, incluindo médicos com experiência no acidente nuclear de Chernobyl.
O episódio também reforçou a necessidade de treinamento de equipes de emergência, como bombeiros e integrantes da Defesa Civil, para situações envolvendo materiais radioativos.
Outro aprendizado destacado pelo físico foi a importância da comunicação com a população.
A ausência de informações claras durante os primeiros momentos da emergência contribuiu para o medo e a disseminação de informações incorretas.
A partir dessa experiência, estratégias de comunicação passaram a receber maior atenção no planejamento de respostas a acidentes radiológicos.
Interesse dos jovens pela ciência cresceu após lançamento da série
Desde a estreia de Emergência Radioativa, Walter Mendes Ferreira tem participado de palestras e encontros em diferentes regiões do Brasil.
A apresentação realizada em Porto Alegre foi a 68ª de uma sequência de atividades motivadas pela repercussão da produção.
Segundo o físico, embora já compartilhasse sua experiência havia quase quatro décadas, o interesse pelo tema aumentou significativamente após o lançamento da série.
Antes, suas apresentações eram direcionadas principalmente a pesquisadores e profissionais especializados. Agora, estudantes e jovens interessados em ciência também passaram a procurar informações sobre o acidente.
“A demanda por informações de crianças e jovens aumentou violentamente”, afirmou.
Para Ferreira, um dos principais resultados da produção audiovisual foi despertar a curiosidade de novas gerações sobre a ciência e o trabalho dos profissionais envolvidos em emergências radiológicas.
A palestra na UFCSPA reuniu estudantes de Física Médica e destacou como um dos episódios mais graves da história da radioproteção mundial continua contribuindo para a formação de novos cientistas.
Fonte: Correio do Povo. Reportagem de Matheus Chaparini.