Brasil pode precisar importar até 10 milhões de toneladas de trigo na safra 2026/27
25 de setembro de 2026
O Brasil pode precisar importar até 10 milhões de toneladas de trigo na safra 2026/27, segundo avaliação da indústria do setor. O volume, considerado inédito, levanta preocupações sobre a capacidade logística do país para receber e distribuir o cereal aos moinhos.
A estimativa foi apresentada por Maurício Ghiraldelli, diretor de suprimentos da Viterra-Bunge, durante o Encontro da Cadeia do Trigo de São Paulo. Segundo ele, caso se confirmem as perdas nas lavouras de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, a Argentina teria condições de atender à demanda brasileira, desde que o cereal apresente qualidade adequada.
O principal desafio, segundo Ghiraldelli, seria a logística para movimentar o volume necessário em um período de disputa por infraestrutura portuária e transporte.
“Muito provavelmente a gente vai ver o Brasil necessitando de 10 milhões de toneladas que a Argentina poderia suprir, se tiver qualidade. Como que a gente descarrega 10 milhões de toneladas?”, questionou.
O executivo afirmou ainda que o cenário é excepcional para o setor e que os moinhos poderão enfrentar dificuldades para receber todo o trigo necessário.
Produção brasileira pode cair 31,7%
As projeções da consultoria Safras & Mercado apontam para uma forte redução na produção brasileira de trigo na safra 2026/27.
A estimativa é de 5,545 milhões de toneladas, contra 8,12 milhões de toneladas na temporada anterior. A queda de 31,7% está relacionada à redução da área plantada e da produtividade, em meio aos impactos das condições climáticas adversas.
Com a redução da produção nacional, a consultoria estima necessidade de importação de 9,3 milhões de toneladas. No setor, porém, há avaliações de que esse volume ainda pode aumentar diante da evolução das perdas.
A demanda total brasileira é estimada em 14,85 milhões de toneladas. Desse volume, 13 milhões de toneladas seriam destinadas à moagem, 450 mil para ração, 400 mil para produção de etanol e 1 milhão de toneladas para exportação.
Nesse cenário, o Brasil poderá se consolidar como o terceiro maior importador mundial de trigo, atrás de Indonésia e Egito.
Logística é uma das principais preocupações
Para Élcio Bento, analista de trigo da Safras & Mercado, o cenário impõe desafios que não encontram paralelo recente na cadeia produtiva.
Além do volume de trigo necessário, a distribuição interna também preocupa. A localização dos moinhos, a distância dos portos e as restrições comerciais relacionadas a determinadas origens do cereal estão entre os fatores que podem dificultar o abastecimento.
Bento também alertou para a possibilidade de perdas na qualidade do trigo produzido no país. Parte do cereal que não apresentar condições adequadas para moagem poderá ser destinada à produção de ração ou exportada como feed, aumentando a necessidade de importação para atender à indústria de alimentos.
Preocupação já chega à próxima safra
Durante o encontro, representantes do setor também demonstraram preocupação com a disponibilidade de sementes para o próximo ciclo.
A avaliação é de que os impactos das perdas atuais podem se estender para a próxima safra caso haja redução na oferta de sementes e outros insumos necessários para o plantio.
Com a produção brasileira em queda e a necessidade de ampliar as compras externas, o setor de trigo entra em um período de maior pressão sobre produção, logística e abastecimento.