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Juros altos: quem paga a conta no interior

Entrelinhas, Germano Barboza

19 de outubro de 2026

Juros altos: quem paga a conta no interior
A Selic em dois dígitos parece assunto de Brasília e do mercado financeiro, mas é no campo, no balcão do comércio e no orçamento das famílias da região que essa conta é cobrada.

Na primeira coluna deste espaço, falei sobre o Brasil que vive no parcelado: famílias que comprometem a renda do futuro com parcelas que, uma a uma, “cabem no bolso”. Mas há um personagem que ficou nos bastidores daquela conversa e que merece estar no centro desta: os juros. O parcelado só pesa tanto porque, aqui, o dinheiro emprestado custa caro. E quem paga essa conta não está apenas nas capitais.

Toda vez que o Copom se reúne, a notícia ocupa as manchetes como se fosse assunto de economistas e de quem investe na bolsa. Não é. A taxa Selic é a referência para todo o crédito do país. Quando ela sobe, ou fica alta por muito tempo, o efeito chega, com algum atraso, ao financiamento do trator, ao capital de giro da loja, ao cartão de crédito e ao empréstimo que a família faz para fechar o mês.

Um corte que ainda não chegou à ponta

Em setembro, o Banco Central reduziu a Selic pela quinta vez seguida, para 13,75% ao ano. É uma boa notícia, mas precisa ser colocada em perspectiva. Mesmo com os cortes, esse ainda é um patamar muito alto para qualquer economia que queira crescer, e o próprio Banco Central tem sinalizado que a queda será gradual. A próxima reunião do Copom, nos dias 3 e 4 de novembro, deve manter esse ritmo cauteloso.

E, para quem toma crédito, a Selic é só o começo da conta. Em cima dela entram o risco, os custos dos bancos, os impostos e a margem de cada instituição. No rotativo do cartão e no cheque especial, as taxas superam com folga 100% ao ano. Ou seja: o corte anunciado na televisão demora a aparecer na proposta que chega à mesa do cliente, e às vezes nem aparece.

O campo sente primeiro

Nossa região vive, em boa parte, do agronegócio. E o produtor rural talvez seja quem mais conhece o peso dos juros, porque a atividade depende de crédito em quase todas as etapas: para plantar, para comprar insumos, para renovar máquinas, para segurar a produção e esperar o melhor momento de vender.

O Plano Safra 2026/2027 trouxe algum alívio. A taxa do Pronamp, voltada ao médio produtor, caiu de 10% para 9% ao ano, e a do custeio para os demais produtores, de 14% para 12,5%. Ainda assim, os recursos com juros controlados não atendem toda a necessidade do setor, e parte importante do financiamento acaba sendo feita a taxas de mercado.

O resultado aparece nos números. Segundo a Serasa Experian, os pedidos de recuperação judicial no agronegócio somaram 474 no primeiro trimestre de 2026, alta de quase 22% sobre o mesmo período do ano anterior. Mato Grosso lidera, com 135 pedidos, seguido por Goiás. Custos de produção elevados, crédito mais seletivo e produtores muito alavancados ajudam a explicar esse quadro.

Nesse mesmo ranking, o Rio Grande do Sul aparece em sétimo lugar, com 30 pedidos. Para quem conhece o campo gaúcho, esse número diz muito. Poucos estados foram tão castigados nos últimos anos: estiagens que frustraram safras seguidas e as enchentes de 2024, que levaram lavouras, estradas e cidades inteiras. Ainda assim, o produtor gaúcho segue fazendo força para honrar seus compromissos, renegociando, cortando onde é possível e lutando para manter as contas em dia. É uma lição de responsabilidade e de resiliência que vale para todo o país.

O efeito em cadeia na cidade

No interior, a economia funciona como uma corrente. Quando o produtor aperta o cinto, adia a troca da caminhonete, compra menos na revenda, posterga a reforma da casa. O comércio da cidade sente logo depois. E o comerciante, que também depende de crédito para manter estoque e capital de giro, passa a pagar mais caro justamente quando vende menos.

Na outra ponta está a família, que já entrou neste cenário comprometida com parcelas. Com juros altos, cada atraso vira uma bola de neve, e cada nova compra a prazo carrega um custo escondido que quase ninguém calcula.

É por isso que digo que juros altos não são um problema “de Brasília”. A decisão é tomada lá, mas a conta é paga aqui: no campo, no balcão e na mesa de casa.

O que está ao nosso alcance

Ninguém aqui vai mudar a Selic. Esse é, aliás, o ponto central que pretendo desenvolver nesta coluna ao longo dos próximos meses: não controlamos o cenário, mas controlamos as nossas decisões diante dele. E, em tempos de juros altos, algumas decisões fazem enorme diferença:

  • Antes de contratar um crédito, comparar o Custo Efetivo Total (CET), e não apenas o valor da parcela.
  • Priorizar a quitação das dívidas mais caras, como cartão e cheque especial, antes de assumir novos compromissos.
  • No campo e na empresa, separar o que é investimento que se paga do que é dívida para cobrir buraco de caixa.
  • Construir uma reserva, ainda que pequena, para não depender de crédito caro a cada imprevisto.

Há também o outro lado da moeda. Para quem tem dinheiro guardado, juros altos significam que poupar está pagando bem. Em um período como este, cada real que deixa de ir para os juros do banco e passa a render a favor da família é uma pequena virada de jogo.

Os juros vão cair um dia, e, quando isso acontecer, o crédito ficará mais barato para todos. Mas quem se organizar agora vai chegar a esse momento em posição muito melhor: com menos dívidas, mais reserva e liberdade para aproveitar as oportunidades. Quem espera o cenário melhorar para começar a se planejar corre o risco de descobrir que, quando o juro finalmente baixar, a dívida já terá crescido demais.

E existe um custo ainda mais silencioso que os juros, que corrói o dinheiro até de quem não deve nada a ninguém. Mas esse é assunto para a próxima coluna.

Por Germano Barboza

Especialista em proteção financeira e planejamento patrimonial, atua há mais de uma década no mercado financeiro, ajudando famílias e empresários a proteger patrimônio, organizar decisões financeiras e planejar o futuro.

@germanobarboza