Hantavírus: o que é, como se transmite e por que casos em cruzeiro não indicam risco de pandemia
18 de maio de 2026
O recente surto de hantavírus registrado a bordo de um cruzeiro internacional, com mortes e passageiros infectados, voltou a chamar atenção para uma doença considerada rara, mas potencialmente grave. Apesar de o episódio ter sido comunicado à Organização Mundial da Saúde (OMS), especialistas indicam que não há mudança no padrão conhecido da doença nem risco de disseminação em larga escala.
O hantavírus é transmitido principalmente por roedores silvestres e não costuma apresentar transmissão sustentada entre humanos. No Brasil, os registros são esporádicos e concentram-se nas regiões Sul e Sudeste.
Segundo o infectologista do Laboratório Weinmann, Mateus Swarovsky Helfer, o vírus está associado ao contato indireto com secreções de animais. “O hantavírus tem como reservatório roedores silvestres. A transmissão geralmente ocorre no contexto rural, do contato do ser humano com partículas dos vírus que ficam nas fezes e urina desses animais”, explica.
Situações como limpeza de galpões, depósitos ou locais com sinais de infestação são apontadas como as mais comuns para o contágio. “Essas partículas se aerosolizam no ar e acabam sendo inaladas”, afirma.
Ao contrário de vírus respiratórios como gripe (Influenza) ou Covid-19, o hantavírus não apresenta disseminação fácil entre pessoas. Há registro desse tipo de transmissão apenas em uma cepa específica, conhecida como Andes. “É uma transmissão que, de pessoa para pessoa, é muito difícil de acontecer. Ela requer contato prolongado e íntimo, então não é um vírus de fácil disseminação”, afirma Helfer.
Segundo ele, mesmo nos casos documentados da cepa dos Andes, não houve cadeias sustentadas de contágio. Esse fator é considerado determinante para afastar o risco de uma pandemia. “Não há justificativa para pensar em um cenário de pandemia, justamente porque não existe transmissão sustentada entre pessoas”, diz.
No caso do cruzeiro, a avaliação inicial indica que a cepa envolvida é justamente a dos Andes, o que explicaria a ocorrência de mais de um caso no mesmo ambiente. Ainda assim, especialistas destacam que o episódio não altera o panorama geral da doença. “A novidade foi o ambiente em que ocorreu, não o comportamento do vírus”, afirma o infectologista.
Região Sul apresenta maior incidência
Embora pouco frequente, a hantavirose é registrada no Brasil há décadas. O infectologista destaca que o número de casos varia conforme o ano, ficando entre cerca de 30 e 130 registros anuais.
No final de semana passado, o Brasil confirmou a primeira morte causada por hantavírus em 2026. De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), a vítima é um homem de 46 anos, morador da cidade de Carmo do Paranaíba, no Alto Paranaíba. Ainda segundo a pasta, ele teve contato com roedores silvestres em uma área de lavoura e a morte ocorreu ainda no início do ano.
No Rio Grande do Sul, a Secretaria da Saúde confirmou, na última semana, duas confirmações da doença, incluindo uma morte. Os casos ocorreram na zona rural, um em Antônio Prado (confirmação laboratorial) e outro em Paulo Bento (confirmação clínica epidemiológica), sendo que esse último levou a pessoa a óbito.
Dados do Ministério da Saúde apontam que o Brasil registrou 35 casos confirmados de hantavirose em 2025 e sete casos até o mês de abril de 2026. Apenas no ano passado, foram 15 óbitos relacionados com a doença, sendo um neste ano. Na última semana, dois casos foram confirmados no Paraná, em Pérola D’Oeste e em Ponta Grossa. Outros 11 casos estão sendo investigados no estado da região Sul.
Conforme o infectologista do Weinmann, a maior concentração de casos ocorre nas regiões Sul e Sudeste, o que inclui o Rio Grande do Sul. Por estar associada a roedores silvestres, a doença não costuma ter relação com centros urbanos densos, mas sim com locais onde há acúmulo de materiais, depósitos ou estruturas fechadas com possível presença desses animais. No Estado, foram registradas oito confirmações no ano passado.
Os primeiros sintomas podem se confundir com os de uma gripe, o que dificulta a identificação inicial. Febre, dor no corpo e náuseas estão entre os sinais mais comuns. A diferença, segundo o especialista, está na evolução do quadro. “No início pode parecer uma gripe forte, mas normalmente não há sintomas como coriza ou congestão nasal”, afirma Helfer.
Nos casos mais graves, a doença pode evoluir rapidamente, comprometendo pulmões e coração. “Pode surgir a tosse seca, dificuldade para respirar e necessidade de internação, até mesmo de cuidado intensivo”, diz.
A taxa de letalidade é considerada elevada, podendo chegar a cerca de 30% dos casos, o que torna o diagnóstico e o atendimento precoce fundamentais. “Quando a gente fala de letalidade de gripe e Covid, temos muito mais casos e estudos, por isso o número é melhor estabelecido. Como os casos de hantavírus geralmente ocorrem em regiões mais pobres e periféricas, a letalidade pode estar um pouco superestimada do que se, por exemplo, ocorresse em um grande centro. Talvez a letalidade fosse menor, pois se tem mais recursos de suporte”, justifica.
Tratamento e prevenção
Helfer explica que não há tratamento específico nem vacina disponível para o hantavírus. O atendimento é baseado em suporte clínico, com monitoramento e intervenções conforme a gravidade do caso. “O tratamento envolve suporte para melhorar a oxigenação e, em casos mais graves, a pessoa pode necessitar de ventilação mecânica”, explica o infectologista.
A prevenção está diretamente ligada à redução do risco de contato com roedores e seus resíduos. Medidas simples podem diminuir a exposição, principalmente em áreas de risco. É importante manter ambientes ventilados, evitar varrer locais fechados com sinais de infestação e, se necessário, utilizar máscara adequada durante a limpeza. Helfer também destaca a importância de ações preventivas para evitar a presença de roedores, como armazenamento correto de alimentos e controle de resíduos.
Apesar da repercussão internacional dos casos no cruzeiro, o especialista reforça que não há alteração no comportamento conhecido do vírus. A doença segue sendo considerada rara, com transmissão limitada e associada a situações específicas de exposição. “É claro que é um vírus bastante agressivo, que a gente tem que cuidar, mas não há um risco de pandemia global”, conclui.
No início de maio, em entrevista com imprensa, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, também já havia descartado a possibilidade de uma pandemia. “Estamos extremamente preparados, tanto em relação aos casos que não são do Brasil, como esses do Paraná (registrados na semana passada), como os com transmissão aqui. Não existe nenhum alerta de risco de pandemia ou de crescimento dessa infecção. O que estamos registrando está dentro da série histórica”, disse o ministro.
Fonte: Correio do Povo