Economia da Argentina recua 1,74% em agosto e aumenta temor de recessão no país
23 de outubro de 2026
A economia da Argentina apresentou retração de 1,74% em agosto de 2026 na comparação com o mesmo período do ano anterior. O resultado acende um alerta sobre a possibilidade de recessão no país, diante do desempenho negativo de diferentes setores produtivos e da perda de ritmo da atividade econômica.
Na comparação com julho, entretanto, houve uma leve alta de 0,1%. Apesar desse avanço mensal, os indicadores continuam apontando dificuldades para a economia argentina. Em julho, a atividade econômica havia registrado queda de 2,8% em relação ao mesmo mês de 2025 e recuo de 1,5% na comparação com junho deste ano.
Os números foram divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (Indec), órgão oficial responsável pela produção de estatísticas econômicas e sociais. No acumulado dos oito primeiros meses de 2026, a economia do país apresentou crescimento de 1,2%, abaixo dos 1,7% registrados no acumulado até julho.
O cenário preocupa especialistas, que observam sinais de enfraquecimento da atividade econômica e aumento do desemprego. A economista Clara Brenck, professora adjunta do Departamento de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avalia que o país pode estar se aproximando de uma recessão. Para ela, a redução da inflação representa um dos poucos avanços recentes, embora esse resultado também esteja relacionado às oscilações cambiais.
Entre os setores que mais pressionaram negativamente a economia argentina em agosto, a pesca apresentou a maior queda, de 15,7%. Na sequência, aparecem a intermediação financeira, com retração de 3,8%; o comércio atacadista e varejista, incluindo reparações, com baixa de 3,5%; a indústria de transformação, com recuo de 3,2%; os transportes e as comunicações, com redução de 2,9%; e a construção civil, que caiu 2,5%.
Em contrapartida, algumas atividades registraram resultados positivos e ajudaram a amenizar a contração econômica. Os segmentos de mineração e petróleo cresceram 11,1%, enquanto os serviços de eletricidade, gás e água avançaram 4,3%. O setor de hotéis e restaurantes também teve desempenho favorável, com expansão de 3,1%.
Na avaliação de especialistas, o avanço das atividades ligadas à extração de recursos naturais tem contribuído para evitar uma queda ainda mais acentuada da economia. No entanto, esses segmentos dependem significativamente da demanda externa e das condições do mercado internacional, o que limita seus efeitos sobre o consumo e a produção voltados ao mercado interno.
A economista Ana Brenck, pesquisadora do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (USP), chama a atenção para a fragilidade desse crescimento. Segundo a análise, o desempenho positivo de setores exportadores não é suficiente para compensar as dificuldades enfrentadas por atividades que dependem mais diretamente da demanda doméstica.
A queda da indústria e do comércio também desperta preocupação por causa da capacidade desses segmentos de gerar empregos. A avaliação é de que as medidas de contenção de gastos adotadas pelo governo do presidente Javier Milei podem estar contribuindo para o enfraquecimento da atividade econômica. A expectativa de que a redução de impostos impulsionasse os investimentos privados e estimulasse a produção ainda não se refletiu de maneira consistente nos indicadores.
O crescimento do setor hoteleiro, por sua vez, oferece algum alívio, especialmente por sua relação com a geração de empregos. Ainda assim, sua participação na economia é relativamente pequena quando comparada à de setores como indústria e comércio, o que reduz sua capacidade de compensar as perdas registradas em outras áreas.
Apesar dos sinais de desaceleração, o governo argentino destaca indicadores que considera positivos. O ministro da Economia, Luis Caputo, ressaltou a alta mensal de 0,1% registrada em agosto e afirmou que o indicador de tendência-ciclo ficou 6,6% acima do nível observado em dezembro de 2023.
Caputo também destacou o desempenho das exportações agroindustriais em setembro. Segundo os dados apresentados pelo ministro, as vendas externas do setor somaram US$ 43,206 bilhões nos primeiros nove meses de 2026, um aumento de 13% em relação ao mesmo intervalo de 2025. O resultado também foi apontado como recorde histórico em volume.
Mesmo com os avanços nas exportações e em alguns segmentos específicos, a economia argentina enfrenta o desafio de transformar esses resultados em crescimento mais amplo e sustentável. O desempenho negativo de setores importantes, somado às dificuldades do mercado de trabalho e à desaceleração dos indicadores acumulados, mantém o risco de recessão no centro das preocupações econômicas do país.
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