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A pasteurização da inteligência

Anderson Brisola, Entrelinhas

13 de outubro de 2026

A pasteurização da inteligência
Estamos usando a inteligência artificial para pensar melhor ou apenas para parecer mais inteligentes?
Foto: Divulgação

De repente, todo mundo virou especialista.

Os textos ficaram mais elaborados, praticamente sem erros de gramática ou digitação. Os argumentos ficaram mais organizados. No trabalho, as apresentações ganharam uma sofisticação quase instantânea. Nas mídias sociais, nas empresas e até nas conversas cotidianas, parece que estamos vivendo uma explosão coletiva de genialidade instantânea.

Ou, pelo menos, de algo que se parece muito com ela.

A chegada da IA colocou ao alcance de praticamente qualquer pessoa ferramentas extraordinárias para pesquisar, escrever, criar e resolver problemas. Mas trouxe também uma contradição que merece nossa atenção: enquanto as máquinas aprendem a reproduzir cada vez melhor a linguagem humana, nós estamos nos acostumando a delegar a elas nossa capacidade de pensar. Será que estamos começando a pensar como máquinas?

Em meados do século XIX, o cientista francês Louis Pasteur desenvolveu um processo capaz de reduzir significativamente a presença de microrganismos no vinho por meio do aquecimento controlado. A técnica, que ficaria conhecida como pasteurização, revolucionou a conservação de alimentos e bebidas.

Mais de 160 anos depois, a popularização da inteligência artificial está provocando um fenômeno semelhante, mas desta vez com as nossas ideias: um processo de padronização que, ao tornar tudo aparentemente mais elaborado e eficiente, corre o risco de eliminar justamente aquilo que nos diferencia — nossas imperfeições, nossa originalidade e, sobretudo, nossa capacidade de pensar por conta própria.

Chamo esse fenômeno de pasteurização da inteligência.

Os sintomas já podem ser percebidos. Textos que soam iguais, opiniões que seguem estruturas semelhantes e até uma criatividade que parece obedecer a alguma fórmula. Já reparou como certas publicações no Instagram parecem ter saído da mesma agência? Às vezes, saíram mesmo. A agência se chama ChatGPT e o diretor de arte é um prompt.

Outro dia peguei um aluno meu no flagra pedindo ao Gemini: “agora reescreva isso com as minhas palavras”. O texto original, genérico, ele também havia recebido pronto.

Nunca foi tão fácil parecer inteligente. Em poucos segundos, conseguimos produzir textos bem escritos, elaborar argumentos convincentes e encontrar soluções para problemas que sequer tivemos o trabalho de compreender. A IA democratizou o acesso a recursos excepcionais, mas também nos ofereceu um atalho tentador: terceirizar o esforço de pensar.

Pensar exige tempo e dá trabalho. Exige questionar, experimentar, cometer erros e, eventualmente, reconhecer que não sabemos alguma coisa. Quando pulamos essas etapas, podemos até chegar mais rápido a uma resposta, mas perdemos parte da experiência que nos permitiria chegar até ela por conta própria.

Quando todo mundo recorre aos mesmos algoritmos para escrever e criar, uma consequência visível é que nossas ideias começam a adquirir o mesmo sabor. Ou melhor, a mesma falta dele. Um molho sem sal nem tempero.

Não sou contra a inteligência artificial. Muito pelo contrário. Trabalho com tecnologia, utilizo essas ferramentas intensamente no meu dia a dia e considero fascinante sua capacidade de ampliar nosso potencial. A IA nos permite acelerar processos e alcançar resultados que, até pouco tempo atrás, pareciam inacessíveis.

O que me inquieta é a constatação de que, diante de tanta conveniência, estamos deixando de exercitar nossas próprias capacidades. Quero continuar utilizando a tecnologia para expandir minha inteligência, não para dispensá-la. Uso as ferramentas para planejar e revisar, nunca para fazer todo o trabalho.

Pasteur desenvolveu um processo para reduzir a presença de agentes indesejáveis e preservar algo valioso. No nosso caso, é o contrário. Estamos correndo o risco de eliminar justamente aquilo que deveríamos conservar: nossas diferenças e nossa maneira particular de enxergar o mundo.

Este texto, inclusive, foi planejado e revisado com auxílio de IA. Mas a inquietação que o motivou, as opiniões que apresenta e a responsabilidade pelo que está escrito continuam sendo minhas.

Pelo menos por enquanto.

Por Anderson Brisola

Anderson Brisola é empreendedor e fundador da Upside Inteligência Web. Fascinado pela internet desde cedo, transformou sua curiosidade por tecnologia em profissão. Nerd assumido e entusiasta da inovação, gosta de explorar as conexões entre o mundo digital, os negócios e o comportamento humano.

Acompanhe o colunista @andybrisola