Canetas emagrecedoras exigem acompanhamento para evitar riscos à saúde, alertam especialistas
13 de outubro de 2026
O uso de medicamentos injetáveis para emagrecimento tem ganhado espaço no tratamento da obesidade, principalmente pela capacidade de reduzir o apetite e favorecer a perda de peso. No entanto, especialistas alertam que o tratamento sem acompanhamento adequado pode provocar consequências nutricionais, físicas e emocionais, especialmente quando o foco está apenas nos números apresentados pela balança.
Um consenso internacional publicado em julho de 2025 na revista científica The Lancet Diabetes & Endocrinology reúne recomendações para o acompanhamento de pacientes que utilizam esses medicamentos. O documento foi elaborado por três organizações europeias ligadas à obesidade e à nutrição: a Associação Europeia para o Estudo da Obesidade (EASO), a Federação Europeia dos Nutricionistas (EFAD) e a Coalizão Europeia de Pessoas com Obesidade (ECPO).
As orientações foram desenvolvidas a partir da análise de estudos científicos disponíveis até 2025 e destacam a importância de uma abordagem multidisciplinar, envolvendo médicos, nutricionistas, psicólogos e profissionais de outras áreas da saúde.
Entre os medicamentos abordados estão os que atuam sobre os hormônios relacionados à saciedade, como a semaglutida, comercializada sob marcas como Ozempic e Wegovy, e a tirzepatida, encontrada no Mounjaro. Esses fármacos podem reduzir significativamente a fome e a quantidade de alimentos consumidos, tornando necessário um cuidado maior com a qualidade da alimentação.
Com a diminuição do apetite, o paciente pode ingerir quantidades insuficientes de proteínas, vitaminas, minerais e fibras. Essa redução, quando não acompanhada de planejamento nutricional, pode favorecer deficiências alimentares, perda de massa muscular e até quadros de desnutrição.
O risco merece atenção especial entre pessoas idosas, que podem apresentar maior vulnerabilidade à perda muscular e ao comprometimento da capacidade funcional. Por isso, além de avaliar a redução do peso corporal, os profissionais devem observar a composição corporal, a força muscular e as condições gerais de saúde durante o tratamento.
O consenso recomenda atenção à ingestão de proteínas, indicando pelo menos 60 gramas por dia durante o processo de emagrecimento, com ajustes conforme as necessidades individuais. A distribuição desse nutriente ao longo das refeições pode contribuir para a preservação da massa muscular. Quando necessário, suplementos proteicos podem ser considerados com orientação profissional.
As fibras também desempenham papel importante. A recomendação apresentada no documento é de pelo menos 25 gramas diárias, conforme a tolerância e as condições clínicas de cada pessoa. Esse cuidado pode ajudar no funcionamento intestinal, especialmente porque a constipação está entre os efeitos adversos associados a esses medicamentos.
A hidratação é outro ponto de atenção. A ingestão diária de aproximadamente dois a dois litros e meio de água pode ser indicada, de acordo com as necessidades individuais, para ajudar a prevenir a desidratação. Como o apetite diminui, algumas pessoas também passam a consumir menos líquidos, sem perceber a mudança.
O acompanhamento nutricional deve considerar ainda possíveis deficiências de ferro, vitamina B12, vitamina D, ácido fólico e zinco. Pessoas com obesidade podem apresentar carências desses nutrientes antes mesmo de iniciar o tratamento, situação que pode se agravar quando a ingestão alimentar diminui consideravelmente.
Em determinadas circunstâncias, a suplementação de vitaminas e minerais pode ser necessária. O documento também aponta que, quando o consumo energético fica abaixo de 1.200 calorias por dia, o uso de um multivitamínico pode ser considerado. A indicação, porém, deve levar em conta as necessidades e as condições clínicas de cada paciente.
Os efeitos colaterais também exigem atenção. Náuseas, vômitos, refluxo, diarreia e prisão de ventre podem ocorrer durante o uso das canetas emagrecedoras. Diante desses sintomas, a conduta deve ser individualizada, podendo incluir ajustes na alimentação, aumento mais gradual da dose ou mudanças temporárias no tratamento, sempre sob orientação médica. O paciente não deve alterar a medicação por conta própria.
Além dos cuidados físicos, os especialistas ressaltam que a saúde mental precisa fazer parte do acompanhamento. A redução da fome e da vontade de comer pode modificar hábitos, comportamentos e a relação emocional com os alimentos.
Alguns pacientes relatam diminuição da chamada fome emocional e dos pensamentos constantes relacionados à comida, fenômeno conhecido como “ruído alimentar”. Embora essas mudanças possam representar benefícios para determinadas pessoas, também podem surgir dificuldades inesperadas, como sensação de vazio, alterações na percepção da própria identidade e desafios para lidar com emoções sem recorrer à alimentação.
Isso acontece porque a comida não está relacionada apenas à nutrição. Ela também pode representar conforto, prazer, convivência familiar e participação em eventos sociais. Quando esse papel muda, questões emocionais antes associadas à alimentação podem se tornar mais evidentes.
Por esse motivo, o consenso recomenda atenção a possíveis sinais de ansiedade, depressão e transtornos alimentares, além de mudanças importantes no comportamento e no bem-estar psicológico. A avaliação profissional permite identificar dificuldades e oferecer suporte adequado durante o processo.
A proposta central das recomendações é que o tratamento da obesidade não seja avaliado exclusivamente pela quantidade de quilos eliminados. A preservação da massa muscular, a prevenção de deficiências nutricionais, o equilíbrio emocional e a manutenção da qualidade de vida também devem ser considerados.
Embora as canetas emagrecedoras representem um avanço no tratamento da obesidade, seu uso precisa estar integrado a um plano individualizado de cuidados. Alimentação equilibrada, hidratação adequada, atividade física compatível com as condições de saúde e acompanhamento profissional são fatores importantes para que a perda de peso ocorra de maneira mais segura e sustentável.
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