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Será que cachorro é pra mim?

Entrelinhas, Nicole Stapelbroek

26 de outubro de 2026

Será que cachorro é pra mim?

Estima-se que hoje existam no Brasil cerca de 20 milhões de cachorros abandonados. Ou seja, podemos dizer que quase 1 cachorro sem dono para cada 10 habitantes do país. Um número alarmante e que gera questionamentos sobre os motivos por trás dessa quantidade enorme de animais que estão largados à própria sorte.

A falta de entendimento sobre o grau de responsabilidade que envolve a escolha de ter um cachorro é ponto preponderante no cenário dos abandonos. Indo mais além, podemos dizer que a falta de conhecimento geral sobre o assunto é uma grande e profunda raiz para o atual cenário negativo.

Muitas pessoas acabam decidindo adotar ou comprar um cachorro impulsivamente. Um indivíduo vê uma raça bonita na televisão, no Instagram ou passeando com algum dono em local público, e já começa a se imaginar dentro da mesma cena. Passa, até mesmo, a idealizar o que seria sua hipotética realidade tendo um animal igual ao seu lado. Em outras palavras, só enxerga o lado bom e bonito da jornada. No entanto, nas primeiras travessuras ou intercorrências de saúde com o animal, a pessoa cai na realidade de que nem tudo são flores e, frequentemente, passa a conseguir enxergar somente a parte negativa (ou trabalhosa normal!) de ter o cão. A partir daí, tudo se torna um problema. Os latidos, as necessidades fisiológicas, as necessidades mentais, os custos com veterinário e tudo mais que envolve a tarefa de ser um efetivo dono de cachorro. Essa pessoa, evidentemente, não entendeu que a relação com o animal envolve um certo nível de reciprocidade e dedicação. E, diria mais, essa pessoa não entendeu que essa escolha envolve um bom nível de conhecimento sobre comportamento, se ela quiser ter um companheiro que lhe seja provedor de satisfação e não de constante frustração e estresse.

               Para ampliar o contexto, levemos em consideração que o número estimado de cães abandonados nos Estados Unidos é de entre 2,4 e 3 milhões. Ou seja, 10 vezes menor do que no Brasil mesmo tendo uma população humana aproximadamente 62% maior que a do Brasil (350 milhões de habitantes nos EUA vs.  215 milhões no Brasil). Morei nos Estados Unidos por 3 anos e, comparativamente, posso afirmar que o nível de conhecimento e dedicação das pessoas com o assunto é muito mais avançado do que o nosso. A maioria das pessoas que decide ter um cachorro por lá trata os afazeres de ser dono de cachorro como um hobby e um compromisso real. Também por este motivo, existe muito material online de graça sobre educar filhotes, existem bons livros sobre comportamento canino e existem também diversos clubes de adestramento com profissionais altamente qualificados e que promovem competições esportivas de obediência, agilidade e até mesmo de truques. A soma de todos estes recursos e do interesse dos americanos no assunto resulta em uma espécie de cultura canina. Cultura essa que se reflete no profundo interesse no tema e dedicação de quem assume o compromisso, com seriedade, de ter um amigo quadrúpede e de cuidá-lo e educá-lo do começo ao fim da vida. Na minha opinião, isso é o que mais falta aqui no Brasil.

A falta de conhecimento sobre o tema também significa, em muitos casos, que as pessoas não avaliam que tipo de cachorro faz sentido dentro do seu estilo de vida. Uma pessoa que é sedentária, jamais deveria escolher uma raça de trabalho (exemplos: Border Collie, Husky, Pastor Alemão). Ou, ainda, uma pessoa neurótica com limpeza deveria prestar atenção no quesito troca de pelagem. A vasta maioria das raças troca de pelagem de maneira intensiva duas vezes ao ano, e isso significa pelos voando por toda a casa, mesmo que o animal seja mantido no pátio. Quando falamos em comprar um cachorro de raça, essas questões são previsíveis e, portanto, seria possível fazer uma avaliação de compatibilidade para minimizar as possíveis frustrações de uma escolha inadequada. O site do American Kennel Club tem, inclusive, um questionário que pode ser respondido online e que faz uma espécie de filtro para apontar as raças mais indicadas para o perfil de cada pessoa e família.

               Além da incompatibilidade entre perfil de cachorro e dono, problemas de comportamento e agressividade também estão no topo da lista de motivos pelos quais muitos cães acabam sendo abandonados. Este é, mais uma vez, um problema frequentemente causado pelos próprios donos que, sem conhecimento de causa, humanizam seus animais. Aqui eu me incluo. Embora nunca tenha tido qualquer problema grave com os meus animais, tenho estudado e tentado colocar em prática diversos aprendizados sobre isso e, confesso, não é tarefa fácil desaprender coisas erradas que pratiquei por anos. É como se eu estivesse no piloto automático. É necessário mudar a forma de enxergar os animais, para o bem deles. Considero que teria sido muito mais fácil aprender da forma correta desde o início do meu contato com cães. Como isso não foi possível, faço o que está ao meu alcance agora para melhorar a minha relação com eles, entendendo que eles são cães, e não seres “humaninhos” felpudos de quatro patas.

               Imagino que agora você esteja se perguntando: “mas o que é humanizar um cachorro?” Humanizar um cão é acreditar que ele pensa e sente como um humano. É quase um grau de empatia exagerado, que se torna prejudicial. Tóxico pro cachorro. Isso ocorre desde nas coisas mais simples, até nas mais complexas. Por exemplo:  a pessoa gosta de uma coleira bonita, e acha que isso vai trazer algum grau de satisfação para o animal. Compra uma roupinha, acreditando que vai dar um upgrade na autoestima do bicho. Acha que colocar o cachorro para dormir na sua cama vai fazê-lo mais feliz. Mas a mente do cachorro não funciona assim! Na verdade, se o cachorro pudesse falar, ele provavelmente diria: “por favor, não passe perfume em mim após o banho porque meu olfato é, literalmente, milhares de vezes mais apurado que o seu! Então se o perfume que passaram em mim no petshop está forte para você, imagine para mim! Por favor, também não me encha de adesivos decorativos na cabeça, porque eu sou um cachorro e não um urso de pelúcia!”. É complicado porque a própria indústria pet nos vende uma imagem de que essas coisas fariam nossos cães mais felizes. Mas o interesse deles, infelizmente, nem sempre está centrado no bem-estar dos animais. Mas, então, o que podemos fazer para ter um cachorro com comportamento adequado e evitar essa que é uma das principais causas de abandono?

               Independentemente de raça, o bom comportamento de um cachorro passa, indubitavelmente, por ele ter suas necessidades básicas atendidas. Não por tomar banho uma vez por semana, nem por ir para a “creche”, menos ainda por ganhar inúmeros petiscos e brinquedos. Em outras palavras, o comportamento adequado de um cão é o resultado de um conjunto de ações que permitam que ele seja quem ele nasceu para ser: um cachorro! Alimentação correta, regras e limites (como dentro de uma matilha), hierarquia (como dentro de uma matilha também!), passeios como forma de imitar a migração original que os ancestrais faziam na natureza, entre outras atividades. Sobre este tema escreverei, exclusivamente, uma coluna na próxima oportunidade, pois o assunto é bastante amplo. 

               Os cães são seres fantásticos que, quando bem conduzidos, podem nos trazer muita alegria e satisfação. O fato é a coisa já começa torta quando as pessoas que decidem ter um cachorro não entendem que estão assumindo um compromisso que tende a durar, em média, 12 a 15 anos. Escolher ser dono de cachorro é um compromisso que envolve, minimamente, gastos financeiros, dedicação de tempo e interesse, planejamento (especialmente se você se muda de casa com frequência/mora de aluguel) e paciência quando o animal é filhote e precisa aprender todas as regras e limites da casa e, também, paciência quando o animal envelhecer e precisar de cuidados paliativos. Afinal de contas, cachorros não são objetos e, portanto, não são descartáveis. Ninguém é obrigado a tê-los. Mas quem escolhe este caminho, deveria fazê-lo ciente de tudo que envolve esta decisão para evitar frustrações e não ser soma na estatística do abandono e menos ainda dos maus tratos.

Por Nicole Stapelbroek

Trabalha no mundo de finanças mas, sempre que possível, busca por aventuras no mundo selvagem. 

Já nadou com orcas e baleias no Ártico, fez trilha para estar a poucos metros de gorilas na Ruanda e fotografou os “big five” (Leão, Elefante, Leopardo, Búfalo e Rinoceronte) em 3 países do continente Africano. 

Apaixonada por cães desde sempre, buscou conhecimento em diversas linhas de adestramento, dog agility (modalidade esportiva) e estuda psicologia e comportamento canino continuamente.

@nicole_stapelbroek