A eleição é nacional. O jornalismo local mostra o que ela significa aqui
09 de outubro de 2026
No último domingo, enquanto acompanhava mais uma eleição de dentro de uma redação regional, pensei algumas vezes sobre o tamanho do país que cabe dentro de uma cobertura eleitoral.
Enquanto o Brasil acompanhava pesquisas, projeções, discursos presidenciais e a disputa pelos grandes cargos, por aqui existiam outras perguntas. Como estava a votação naquele município? Havia filas? O que dizia a Justiça Eleitoral local? Como votava a nossa região? O que determinado resultado representava para quem vive aqui?
Pode parecer uma diferença pequena. Não é.
Talvez uma das funções mais importantes do jornalismo local seja justamente responder a uma pergunta simples demais para ganhar espaço nas grandes coberturas nacionais: o que tudo isso significa para nós?
A internet nos deu uma capacidade extraordinária de acompanhar acontecimentos distantes. Uma pessoa vivendo em uma cidade pequena do interior do Rio Grande do Sul pode saber, em poucos segundos, o que aconteceu em Brasília, acompanhar uma decisão judicial, consultar uma pesquisa eleitoral ou assistir ao discurso de um candidato realizado a milhares de quilômetros dali.
Mas existe uma contradição curiosa nesse excesso de informação: podemos conhecer detalhadamente uma disputa nacional e saber muito pouco sobre aquilo que acontece a poucas quadras de casa.
Quem acompanha permanentemente a Câmara Municipal? Quem pergunta sobre aquele recurso anunciado para a região meses atrás? Quem conhece os problemas daquela estrada, daquele hospital, daquela escola? Quem consegue olhar para uma proposta apresentada durante a campanha e perguntar o que ela efetivamente representa para a comunidade?
É nesse espaço que o jornalismo local se torna insubstituível.
Durante eleições, isso fica ainda mais evidente. Há décadas os estudos em comunicação discutem o chamado horse-race journalism, ou jornalismo de “corrida de cavalos”: uma cobertura excessivamente concentrada em quem está ganhando, quem está perdendo, quem cresceu dois pontos e quem caiu três. Pesquisadores mostram que, em campanhas eleitorais, a lógica da competição frequentemente ocupa espaço que poderia ser destinado à discussão sobre políticas públicas e problemas concretos.
Pesquisa eleitoral é notícia. Estratégia política é notícia. Saber quem pode vencer também interessa ao eleitor. O problema começa quando a eleição passa a ser compreendida apenas como uma disputa por posições.
Porque eleição também é escolher quem tomará decisões sobre saúde, educação, segurança, infraestrutura, agricultura, impostos e tantos outros assuntos que deixarão de ser promessa na manhã seguinte à votação.
É justamente aí que a imprensa regional tem uma vantagem que nenhum grande veículo nacional consegue reproduzir: proximidade.
O jornalista que vive naquele território conhece nomes, histórias, demandas e contextos. Sabe quando uma promessa é realmente nova e quando apenas ganhou uma embalagem diferente. Pode recorrer ao arquivo, procurar quem foi afetado por determinada política pública e acompanhar uma história depois que os holofotes da campanha forem embora.
E, no interior, falar de jornalismo local inevitavelmente significa falar de rádio.
Uma pesquisa realizada em 2025 pela Ponto Map e pela V-Tracker apontou o rádio como o meio de comunicação de maior credibilidade entre os entrevistados, com 81% declarando confiança, apesar de as redes sociais apresentarem frequência de acesso muito maior.
Talvez parte dessa confiança tenha relação justamente com algo que uma porcentagem não consegue medir completamente: vínculo.
O ouvinte conhece aquela voz. Sabe onde fica a emissora. Encontra o comunicador no supermercado, na rua, no evento da comunidade. Telefona quando falta água, manda uma mensagem quando uma estrada está bloqueada, pergunta quando não entende uma decisão pública. O rádio não está apenas transmitindo para uma comunidade. Em muitos lugares, ele faz parte dela.
Isso não diminui sua responsabilidade. Pelo contrário. A proximidade exige ainda mais rigor, porque o jornalista noticia fatos envolvendo pessoas que conhece, autoridades que encontrará novamente e instituições com as quais continuará convivendo depois que a eleição terminar.
E é justamente quando imaginamos uma cidade sem esse trabalho que sua importância fica mais clara.
O Atlas da Notícia mostrou, em 2025, que 2.504 municípios brasileiros não possuíam nenhum veículo jornalístico local registrado. Neles vivem mais de 20 milhões de pessoas. Outros municípios têm apenas um ou dois veículos. No Rio Grande do Sul, 180 cidades foram classificadas como desertos de notícias.
Uma coisa é ter acesso à informação. Outra é ter acesso à informação sobre o lugar onde se vive.
Podemos saber tudo sobre a disputa presidencial e quase nada sobre quem fiscaliza nossa prefeitura. Podemos conhecer os bastidores de Brasília e desconhecer decisões tomadas dentro da nossa própria Câmara de Vereadores.
E isso talvez seja uma das grandes questões democráticas do nosso tempo.
O Reuters Institute mostrou neste ano que apenas 36% dos brasileiros dizem confiar nas notícias de maneira geral e que 47% afirmam evitar o noticiário algumas vezes ou frequentemente. Em um ambiente assim, a resposta do jornalismo não pode ser apenas produzir mais informação. Precisa produzir informação que tenha sentido.
O jornalismo local faz isso quando aproxima decisões públicas da vida cotidiana. Quando pergunta pelo leitor e pelo ouvinte. Quando fiscaliza depois da eleição. Quando lembra promessas. Quando contextualiza. Quando não deixa que a política seja apenas uma disputa entre nomes, mas a apresenta como aquilo que ela realmente é: decisões capazes de alterar a vida das pessoas.
No domingo, milhões de brasileiros escolheram seus representantes.
Mas a democracia não terminou quando as urnas foram fechadas.
Na verdade, é justamente agora que começa outra parte do trabalho.
E talvez a pergunta que precisemos fazer seja esta: quem estará olhando para aquilo que acontece perto de casa quando a eleição deixar de ser manchete?
Por Daiane Giesen

Daiane Giesen é jornalista, coordenadora de jornalismo do Grupo Ceres de Comunicação e gerente da Positiva 100.3 FM, em Carazinho. Sua trajetória é marcada pela informação, pela proximidade com as pessoas e pelo olhar atento para os acontecimentos que movimentam a comunidade. No dia a dia, está entre redações, pautas, histórias e os desafios de transformar informação em conteúdo relevante.
Entre uma pauta e outra, encontra nos livros, no café e na companhia dos gatos seus momentos de pausa, porque acredita que uma vida interessante também é feita daquilo que acontece longe dos holofotes.
Acompanhe a colunista: @daiane Giesen