A paixão de produzir e a razão de permanecer
07 de outubro de 2026
Considero-me um privilegiado por poder seguir uma profissão que aprendi ainda muito cedo, acompanhando meu avô e meu tio materno: ser agricultor.
Foi convivendo com eles, e depois acumulando minhas próprias experiências, que percebi que a agricultura exige algo difícil de colocar em uma planilha. Exige carinho, atenção, dedicação e, principalmente, amor pelo que se faz.
Costumo dizer que ser produtor rural é exercer uma profissão muito nobre. Não porque seja mais importante do que tantas outras – cada profissão tem seu papel e seu valor -, mas pela relação muito particular que temos com aquilo que produzimos.
Para mim, existe algo especial no fato de trabalharmos todos os dias com a obra de Deus. Trabalhamos com a natureza, com o solo, precisamos do sol e precisamos da chuva. Fazemos tudo aquilo que está ao nosso alcance, mas uma parte fundamental do processo continuará sempre fora das nossas mãos.
Colocamos uma pequena semente no chão e acompanhamos um verdadeiro milagre da multiplicação. Um único grão de soja pode se transformar em uma planta capaz de produzir centenas de novos grãos. Podemos escolher a genética, construir fertilidade, cuidar do solo, manejar a lavoura e utilizar toda a tecnologia disponível. Mas continuamos dependendo da natureza para completar esse processo.
E existe uma segunda dimensão dessa profissão que, para mim, torna tudo isso ainda mais especial: produzimos alimento.
Todos os dias, em lugares que provavelmente jamais conheceremos, alguma coisa produzida por um agricultor ou pecuarista estará na mesa de alguém. No café da manhã, no almoço ou no jantar. Gostaríamos que todas as pessoas do mundo pudessem ter pelo menos essas três refeições diariamente.
Saber que nosso trabalho participa, mesmo de maneira anônima, da vida de tantas pessoas é motivo de orgulho, mas também de uma enorme responsabilidade.
Talvez seja por tudo isso que a agricultura seja tão apaixonante. Mas essa mesma paixão também pode nos pregar algumas peças.
Quem é produtor sabe do que estou falando. Nós gostamos de produzir. Gostamos de ver uma lavoura bonita, de colher mais, de recuperar uma área, de incorporar novos hectares e de enxergar aquilo que construímos crescendo.
E não há nada de errado em crescer. Eu também gosto de crescer. O problema começa quando confundimos crescimento com solidez.
Surge uma oportunidade de comprar terra. Depois aparece uma boa área para arrendar. A estrutura aumenta e uma máquina nova passa a parecer necessária. Mais hectares exigem mais capital de giro. Imobilizamos mais capital, assumimos novos compromissos e aumentamos nossa necessidade de crédito.
Quando olhamos cada decisão isoladamente, quase todas podem fazer sentido. O perigo está na soma delas.
Sem perceber, podemos chegar a um nível de alavancagem em que o negócio passa a depender de uma condição que considero muito perigosa na agricultura: precisar que tudo dê certo.
E quem vive da agricultura há algum tempo sabe que nem sempre tudo dará certo.
Teremos grandes safras e teremos safras ruins. Haverá anos em que o clima será nosso aliado e outros em que uma estiagem, excesso de chuva, granizo ou qualquer outra adversidade colocará à prova aquilo que construímos. Os preços também terão seus ciclos.
Isso não é pessimismo. É agricultura.
Não escolhemos quando vai chover. Não determinamos quanto valerá a soja, o milho, o trigo ou o boi daqui a alguns meses.
Mas existe muita coisa sobre a qual temos poder de decisão.
Podemos comprar melhor. Podemos controlar custos. Podemos gerir melhor as pessoas. Podemos buscar eficiência, avaliar com cuidado cada investimento, melhorar processos e administrar o nível de endividamento que estamos dispostos a carregar.
Também podemos nos preparar para aproveitar as oportunidades quando elas aparecem. Uma boa comercialização, uma redução de custos ou uma excelente safra produzem efeitos muito diferentes em uma propriedade organizada financeiramente e em outra que precisa usar praticamente todo resultado positivo para pagar compromissos assumidos no passado.
Foi por isso que, com o passar dos anos, passei a dar cada vez mais importância a uma ideia:
Nem sempre aquele que mais colhe é quem apresenta o melhor resultado na última linha.
Não tenho nenhuma dúvida de que devemos perseguir produtividade. Mas precisamos perseguir resultado junto com ela.
Não adianta colher uma quantidade extraordinária de sacas por hectare se o custo para produzi-las compromete o resultado. Da mesma maneira, não adianta dobrar a área cultivada se, para sustentar esse crescimento, multiplicamos o risco do negócio.
A agricultura exige resiliência justamente porque trabalha em ciclos.
Depois de uma safra ruim haverá outra safra. Depois de uma estiagem voltaremos a plantar. Depois de um período ruim de preços haverá um novo mercado. Só que, para aproveitar o próximo ciclo, precisamos chegar até ele em condições de continuar produzindo.
Talvez, então, o verdadeiro tamanho de uma propriedade não deva ser medido somente pelos hectares que planta, pelas máquinas que possui ou pelas toneladas que consegue produzir.
Uma propriedade forte é também aquela que consegue atravessar o ano ruim.
Meu avô e meu tio me ensinaram a gostar da agricultura. O tempo foi me ensinando que uma das melhores maneiras de preservar essa paixão é não permitir que ela nos faça perder a razão.
Porque honrar essa profissão não significa apenas produzir muito na próxima safra.
Significa construir condições para continuar produzindo por muitas outras.
E essa reflexão me leva a uma pergunta que pretendo aprofundar na próxima coluna.
Temos, de um lado, Mato Grosso: uma das maiores potências agrícolas do mundo, com enorme escala, tecnologia e condições climáticas muito mais estáveis para a produção de grãos do que as encontradas no Rio Grande do Sul.
Do outro, temos justamente o Rio Grande do Sul, que nos últimos anos enfrentou uma sequência extremamente dura de adversidades climáticas.
Ainda assim, quando observamos dificuldades financeiras, inadimplência e recuperações judiciais no campo, surge um contraste que merece ser estudado com cuidado.
A recuperação judicial não é o ponto principal dessa discussão. Ela pode ser apenas um sintoma de algo maior.
Quanto da saúde financeira de uma propriedade é determinada pelo clima – e quanto é consequência da forma como escolhemos crescer?
Expansão, arrendamento, terra, máquinas, capital imobilizado, crédito e alavancagem também fazem parte dessa equação.
Na próxima coluna, vamos colocar Mato Grosso e Rio Grande do Sul lado a lado. Buscaremos os números e tentaremos entender o que essas duas realidades tão diferentes podem nos ensinar sobre uma questão que, no fim das contas, interessa a qualquer produtor:
não apenas como crescer, mas como crescer sem perder a capacidade de permanecer.
Por Fernando Stapelbroek Trennepohl
Apaixonado pelo agro desde sempre, começou a trabalhar aos 15 anos na Fazenda Anna, de seus avós, onde participou do início do Projeto Aquarius, o projeto de agricultura de precisão mais antigo do Brasil. No final de 2005, fundou a Evolução Agrícola, empresa de prestação de serviços em agricultura de precisão.
Em janeiro de 2007, foi convidado pela família para atuar na Stara, onde chegou ao cargo de diretor comercial e permaneceu até setembro de 2013, quando participou do início das atividades da Agropecuária Franciscus, em Divinópolis do Tocantins.
Atualmente, atua na Agropecuária Franciscus e na Fazenda Mataboa, em Não-Me-Toque, além de integrar o conselho de administração da Stara.
Acompanhe o colunista: @fernandos_trennepohl