Esperança na luta contra a aids: dois novos casos de possível cura do HIV são anunciados por cientistas
25 de setembro de 2026
Médicos anunciaram dois novos casos de possível cura do HIV. Os pacientes interromperam o uso de antirretrovirais e, desde então, o vírus não voltou a ser detectado nos exames. Um deles, conhecido como paciente de Kansas City, cidade mais populosa do estado do Missouri (EUA), está há 14 meses sem os medicamentos.
O outro, que também tinha histórico de hepatite B, completou 12 meses sem tratamento contra o HIV e sem carga viral detectável.
Uma carga viral detectável ocorre quando um exame encontra HIV no sangue em quantidade suficiente para ser medida. Já a carga viral indetectável significa que o vírus está em um nível tão baixo que o teste não consegue medi-lo. Quando esse resultado é mantido durante o tratamento, não há transmissão por relações sexuais.
Com os dois anúncios, sobe então de 11 para 13 o número de casos de cura ou remissão do HIV contabilizados pela Sociedade Internacional de Aids (IAS).
O paciente de Kansas City é um homem de 21 anos que recebeu o diagnóstico de HIV e de uma forma agressiva de leucemia em 2018. Antes de começar o tratamento, ele tinha mais de 2 milhões de cópias do vírus por mililitro de sangue e uma quantidade muito baixa de células de defesa.
Em outubro de 2020, ele recebeu células-tronco de uma doadora sem parentesco, mas totalmente compatível. A doadora tinha duas cópias de uma mutação rara chamada CCR5-delta32, que impede que as formas mais comuns do HIV usem uma das principais portas de entrada das células.
Após o transplante, o paciente teve complicações e precisou receber um reforço de células-tronco. Os antirretrovirais foram suspensos em fevereiro de 2025 e, 14 meses depois, os exames continuavam sem encontrar o vírus no sangue nem células com HIV capazes de reiniciar a infecção.
O segundo paciente recebeu células-tronco de um doador que também tinha duas cópias da mutação CCR5-delta32. O caso era considerado mais complexo porque a pessoa tinha diferentes formas do HIV, capazes de usar mais de uma porta para entrar nas células.
Os medicamentos foram suspensos pouco mais de quatro anos após o transplante. Depois de 12 meses, o HIV continuava indetectável, e os pesquisadores não encontraram vírus capaz de se multiplicar nem material genético completo do HIV em amostras do intestino.
A interrupção dos remédios, porém, fez a hepatite B voltar a se multiplicar em apenas 25 dias, já que parte dos antirretrovirais também controlava esse vírus.
Os dois novos casos ainda são tratados como possíveis curas porque o tempo sem medicamentos é relativamente curto. Os pesquisadores precisam acompanhar os pacientes por mais tempo para verificar se o HIV realmente não voltará.
O termo mais adequado, segundo Ricardo Diaz, infectologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é “remissão sustentada do HIV sem antirretrovirais”.
“Isso quer dizer que você tira o tratamento e o vírus não volta. Em algumas pessoas, a gente tem evidências muito fortes de que realmente o vírus não existe mais”, explica.
Não há, porém, um único exame capaz de verificar todas as partes do corpo e garantir que nenhuma célula infectada permaneceu escondida. Por isso, mesmo nos casos mais antigos, os pacientes continuam sendo acompanhados.
Diaz afirma que é preciso esperar pelo menos dois anos sem medicamentos para que as evidências de remissão fiquem mais fortes. A interrupção dos antirretrovirais não deve ser tentada fora de estudos, porque, na maioria das pessoas, o HIV volta a se multiplicar rapidamente.
Fonte: O Sul