Doenças Inflamatórias Intestinais afetam 10 milhões de pessoas
01 de junho de 2026
Dor abdominal persistente, diarreia ou constipação crônicas, fadiga, febre e perda de peso não intencional. Esses são alguns dos sintomas do grupo de Doenças Inflamatórias Intestinais (DIIs), que acontecem quando o sistema imunológico do paciente passa a atacar as estruturas do próprio organismo, desencadeando em inflamações persistentes no sistema intestinal. Entre principais formas dessas inflamações crônicas estão a Doença de Crohn e a Retocolite Ulcerativa.
No caso da doença de Crohn, pode causar lesões diversas em várias do trato intestinal, com incidência mais frequente no intestino delgado e cólon. Essas inflamações podem causar o estreitamento do canal do intestino e fístulas – que são conexões anormais entre órgãos ou vasos sanguíneos. Já a Retocolite Ulcerativa causa inflamações no cólon e no reto e atinge apenas a mucosa intestinal, prejudicando a absorção de água pelo intestino grosso.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), desde 2004, a incidência de casos no mundo cresceu. O Ministério da Saúde estima que cerca de 10 milhões de pessoas sofram com a doença em todo o mundo. Não há cura para estas condições, mas o tratamento para os sintomas da doença e para o controle das inflamações está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS).
O coordenador do Núcleo de Doenças Inflamatórias Intestinais do Hostipal Moinhos de Vento, gastroenterologista Jonathas Stiff, explica que esse tipo de doença não é transmitida por vírus ou bactérias, mas que “estão dentro do grupo das doenças autoimunes. Ou seja, as células do intestino grosso ou delgado entendem que há uma necessidade de recrutar células que irão inflamar ou perpetuar uma inflamação no intestino causando úlceras”, explica o especialista.
A principal causa da doença é genética, apesar de existirem hábitos de vida que podem favorecer o aparecimento dos sintomas, como alimentação e estresse. Além disso, não está descartada a relação de fatores imunológicos, ambientais ou a alteração da flora intestinal com a manifestação dos sintomas.
As pessoas que já tem a condição, podem, em algum momento da vida, manifestar esses sintomas e então buscar o diagnóstico. “Para prevenção, a melhor evidência atual é ter uma vida saudável. Usar mínimo de antibióticos possível na infância, amamentação leite materno, parto vaginal, tudo isto ajuda a compor uma microbiota saudável e diminuiu o risco de surgir doenças inflamatórias intestinais”, afirma o especialista.
Tratamento
Quando um paciente se queixa de dores abdominais persistentes, diarreia, emagrecimento não intencional, anemia e sangramento das fezes e busca atendimento em saúde, o profissional médico dá início ao protocolo de diagnósticos. Geralmente são solicitados exames de sangue, fezes, imagem e endoscopias. A fase crítica dos sintomas pode durar mais de três meses até que o paciente busque atendimento.
A partir do diagnóstico – que pode ser de doença de Crohn, retocolite ulcerativa ou outras enfermidades autoimunes que integram o grupo –, é avaliado o grau das inflamações e as regiões lesionadas. “Hoje em dia, existem remédios que permitem que o paciente possa responder muito rápido, já nas doses de indução, que em média dura cerca de 12 semanas. Depois deste período é necessário manter a medicação (na maioria dos casos) sendo chamado de fase de manutenção para prevenir o retorno da inflamação”, defende Stiff.
Entre os tratamentos possíveis para as doenças, esta “Terapia Biológica”, que consiste na utilização de medicamentos produzidos a partir de organismos vivos para bloquear a ação do sistema imunológico que causa as inflamações. Entre as primeiras opções de tratamento desenvolvidas para esses casos está o uso de remédios corticoides que, por causarem muitos efeitos colaterais e não fazerem um bloqueio seletivo no sistema imunológico, não podem ser administrados a longo prazo.
A terapia biológica surge como uma alternativa com resultados mais efetivos e menos efeitos colaterais. O tratamento também pode ser realizado com a administração de medicamentos aminossalicilatos – anti-inflamatórios que atuam diretamente no revestimento interno do trato gastrointestinal – e imunossupressores – que inibem ou diminuem a atividade do sistema imunológico, a depender de cada caso.
Além disso, como o controle dos sintomas pode suprimir as funções do sistema imunológico, que é responsável por defender o corpo de organismos estranhos, o paciente fica mais vulnerável a outras infecções. Por isso, o acompanhamento de um profissional médico é essencial para a manutenção da saúde, apesar da baixa imunidade.
Prevenção
Hábitos de vida saudáveis ajudam a evitar o aparecimento dos sintomas e, aliado a administração adequada de medicamentos, auxiliar, inclusive, para a remissão. Práticas como uma alimentação equilibrada, prática de atividades físicas, controle de estresse e o abandono do consumo de ultraprocessados, álcool e cigarro podem ser fortes aliados na prevenção a doença.
“Uma dieta rica em vegetais, leguminosas, carne, azeite de oliva, nozes, castanhas, é considerada muito saudável para a microbiota e com grande chance de reduzir risco de desenvolvimento das doenças inflamatórias intestinais ao longo prazo”, explica o especialista, destacando que a obesidade é um fator de risco para a Doença de Crohn.
Um levantamento realizado pelo Ministério da Saúde revelou que essas doenças foram responsáveis por quase 24 mil internações somente em 2024 em todo solo brasileiro. O dado representa um crescimento superior a 60% com relação a 2015. Apesar dessas condições serem crônicas e, portanto, não terem cura, o tratamento adequado, aliado a adoção de hábitos de vida mais saudáveis podem aumentar significativamente a qualidade de vida do paciente que convive com a doença.
O controle dos sintomas a longo prazo podem evitas o desenvolvimento de outras doenças em decorrência das inflamações, como o câncer colorretal, anemia e deficiências nutricionais, além de riscos ao equilíbrio imunológico.
Fonte: Correio do Povo