Sábado, 02 de Maio de 2026

Sábado
02 Maio 2026

Tempo agora

Tempo nublado 19
Tempo nublado 20°C | 11°C
Tempo limpo
Dom 03/05 19°C | 6°C
Chuvas esparsas
Seg 04/05 22°C | 13°C

Campanha gaúcha se firma como polo de vinhos finos

Agro

02 de maio de 2026

Campanha gaúcha se firma como polo de vinhos finos
Área geográfica delimitada tem 44.365 quilômetros quadrados e 14 municípios
Foto : Paula Jardim / Divulgação

Dos 42,4 mil hectares cultivados com uva no Rio Grande do Sul, aproximadamente 1,56 mil estão concentrados na Campanha, segundo maior polo de vinhos finos do país, com 31% da produção nacional. Apesar de a zona de fronteira do Pampa gaúcho com a Argentina e o Uruguai ser mais conhecida pela pecuária, foi ali que se instalou, em 1882, a primeira vinícola registrada no Brasil, onde hoje está o município de Candiota. No entanto, apenas um século depois a vitivinicultura ganhou força naquela área e, a partir dos anos 2000, passou a ter uma expansão mais significativa no número de produtores.

Entre os motivos para a atração de investidores, estão as características que favorecem o cultivo, como a amplitude térmica, com verões e invernos bem-definidos, e a alta insolação. O pesquisador da Embrapa Uva e Vinho Jorge Tonietto, que coordenou os estudos científicos que subsidiaram a obtenção da Indicação de Procedência (IP) junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), explica que o clima da Campanha é mais quente e possibilita cultivar variedades de uvas. “Desde as mais precoces, aquelas que exigem menos quantidade de calor ao longo do período da videira, até variedades mais tardias”, descreve.

Outro ponto citado por ele é a umidade. “Na Campanha, tu tens, vamos dizer assim, um volume um pouco menor de chuvas, sobretudo no período de maturação da uva, o que cria uma condição única ali”, salienta. A distância do mar e o tipo de vegetação nativa do bioma Pampa também se somam às particularidades registradas.

A IP obtida em 2020 garante o uso de um selo nas garrafas, que atesta a origem e assegura que o vinho expressa as características da área geográfica delimitada em 44.365 quilômetros quadrados, em um dos 14 municípios, onde foi produzido.

“É o diferencial da viticultura, onde tu vais no mundo, em cada região, vais encontrar coisas originais, próprias e a viticultura e produção de vinho têm essa interface com as regiões, com o meio geográfico de produção”, acrescenta.

São aproximadamente 1,56 mil hectares concentrado na Campanha

Qualidade única

Para ele, a Campanha tem um conjunto de fatores, “desde a cultura, a tradição, a paisagem, a datação das variedades e as condições”, que torna os vinhos únicos, além da diversidade de solos. “Cada produtor pode escolher os solos e como interagir com o clima e as variedades”, observa Tonietto. “A viticultura é feita disso. Cada região tem uma condição distinta, as variedades se adaptam de forma própria.”

Nesse sentido, destacam-se o manejo e o aspecto econômico: por se tratar de uma área extensa, com topografia suave e relevo levemente ondulado, há viabilidade para mecanização. “Isso é um fator importante, o que facilitou, por exemplo, a implantação de vinhedos em espaldeira nesse sistema vertical de condução”, diz o pesquisador da Embrapa. É nesse contexto que a Indicação de Procedência se consolida como um instrumento de valorização da produção local, tema que também é destacado pelo setor produtivo.

O vice-presidente da Associação Vinhos da Campanha Gaúcha e enólogo da Nova Aliança, cooperativa que mantém uma unidade de produção em Santana do Livramento, André Gasparin, explica que o uso do Selo da Campanha pelas vinícolas passa por um controle de qualidade, e os rótulos atendem a diversos critérios. “O consumidor entende que ele tem um diferencial em relação ao mundo de vinhos”, afirma Gasparin.

Ele informa que, na Campanha, há 22 vinícolas e predomina a espécie Vitis viniferas, com foco quase total na produção de vinhos finos, diferentemente da Serra, onde há grande produção de sucos e uvas de mesa.

Para a elaboração de vinhos com o selo, as uvas devem ser 100% produzidas na área delimitada. Gasparin destaca que há 36 cultivares registradas na região, mas “esse número vem diminuindo pela identificação das cultivares mais aptas”. A tannat, por exemplo, é uma das que mais se adaptou à região “em função das características do solo e do clima”.

Apesar dessas qualidades, a associação observa que a região ainda enfrenta limitações, como falta de infraestrutura logística, dificuldades de acesso ao crédito, escassez de mão de obra qualificada no meio rural e burocracia para certificações e exportações, segundo Gasparin.

Uvas diversificam negócios de famílias

Dentre os produtores de vinho da Campanha estão famílias que se dedicam à pecuária, mas decidiram diversificar a produção com as videiras. No caso dos Ormazabal Moura, os 5 hectares de parreirais da Bodega Sossego, em Uruguaiana, foram implantados para dividir espaço com o gado Braford e o cultivo das pastagens. O pai de René, Irene e Laura começou a atividade como um hobby em 2004. Porém, o passatempo virou negócio e atualmente já são cerca de 20 mil garrafas por ano.

Laura, René e Irene, da Bodega Sossego, entendem que o vinho colabora para imagem instituciona

“Hoje é um hobby profissional. Somos bem conscientes, que talvez eu não ganhe muito dinheiro com uva, mas não perco. Então, nos organizamos para a venda da uva pagar os custos do vinhedo e o vinho vender, que é o destino da garrafa, mas a gente também usa muito na questão institucional”, afirma René Ormazabal Moura, que diz associar a carne e o vinho em eventos do setor.

“Eu entrei no negócio para rentabilizar, e não ser um saco sem fundo. É um negócio rentável e uma alternativa para o nosso portfólio, mas não tiro meu sustento disso”, ressalta, lembrando que os lucros são frequentemente reinvestidos no negócio.

A propriedade terceiriza a vinificação de uma parte da produção de uva e comercializa o restante da fruta para outras empresas. Inclusive o empresário investiu em um caminhão frigorífico para preservar a fruta, que perde a qualidade dependendo da intensidade do calor.

“A região, com certeza, tem potencial de fornecer mais (uvas) para o Estado. O que falta são produtores. Terra (para plantar) não é o problema”, avalia ele.

Paixão pela atividade

Também do segmento da pecuária, a família que criou a Vinícola Campos de Cima se “aventurou” ao começar a fabricar vinho. O casal José Silva Ayub e Hortência Ravache Bandão Ayub iniciou a plantação de 15 hectares de vinhedos em uma coxilha, em Itaqui, em 2002. “O primeiro vinhedo implantamos em três anos. Foi um projeto muito corajoso da nossa parte, porque não entendíamos nada de vinhedo e da indústria vinícola, mas apreciamos vinho. Então, foi um projeto muito focado na paixão”, descreve Hortência, que atualmente é sócia das filhas Vanessa e Manuela.

A intenção era aproveitar as excelentes condições para a maturação da uva, além de um solo bem drenado, características que estavam atraindo muitos investidores para a atividade na região no início dos anos 2000.

“A Campanha é uma região superconservadora, com pecuária e cultivo de grãos”, diz Hortência, referindo-se a alguns dos desafios para desenvolver a atividade na área. Para Hortência, mesmo com mais de duas décadas de experiência, o manejo não é fácil. Por isso, uma equipe de técnicos agrícolas foi capacitada para auxiliar. “Tem de cuidar muito bem do vinhedo, que é o mais importante para ter uma uva de excelente qualidade. Depois, a responsabilidade do processo de vinificação que é feito aqui e depois a parte de comercialização”, diz.

O lado “apaixonante” é o que mantém o trabalho com as uvas, colhidas manualmente, a maior parte por mulheres. “A primeira seleção é na própria vinícola”, diz a empresária. Segundo a produtora, a competição brasileira não assusta, mas a importação de garrafas estrangeiras representa um obstáculo. “Os vinhos importados entram aqui no Brasil com taxação de impostos muito desleal para nós. Fora isso tem o contrabando”, comenta.

A vinícola trabalha com uma média de 40 mil a 50 mil garrafas ao ano. Muitos dos rótulos são comercializados em restaurantes e hotéis em São Paulo, e até 10% do total é exportado, sendo um dos mercados o Reino Unido, o que dá destaque para a fazenda e a impulsiona a continuidade do processo.

Vinícola aposta em sustentabilidade

Para ampliar a disponibilidade de produtos, a Estância Guatambu, de Dom Pedrito, que atua no agronegócio desde 1958, importou mudas de uvas viníferas da França e da Itália, em 2003. Assim como outras propriedades da região, a empresa buscou aproveitar o terroir – conceito que define a combinação de fatores que influenciam produtos agrícolas – da Campanha para produzir bebidas a partir da uva.

Hoje, são 20,5 hectares cultivados com as variedades charonnay, sauvignon blanc, gewürztraminer, tempranillo, merlot, tannat, cabernet sauvignon e pinot noir, com densidade de 3 mil unidades por hectare. Os parreirais estão localizados na Estância Leões, uma área de reserva legal, com grande biodiversidade do bioma Pampa. Esse contexto ajudou a orientar a adoção de práticas sustentáveis ao longo da história do negócio. Segundo a empresa, a adubação é realizada por meio de compostagem, e a vinícola conta com um parque solar atendendo a 100% da demanda energética para a fabricação dos vinhos.

A agrônoma Gabriela Hermann Pötter, da terceira geração da família, destaca que a preocupação ambiental é um propósito desde a implantação da vinícola e que ajuda a aumentar o valor percebido dos produtos. “É difícil até de estimar o quanto agrega. Na soja, no arroz, a gente não consegue agregar tanto essas características, desse valor como no vinho”, define.

Um balanço das emissões de gases de efeito estufa na estância mostrou que as ações implementadas deram resultado.

“A gente pode dizer que, em cada garrafa que produzimos, resgatamos 500 gramas de gás carbônico equivalente do efeito estufa. Então, é maravilhoso a gente saber que está contribuindo para a preservação do meio ambiente”, destaca Gabriela.

Dinâmica de produção

Há mais de duas décadas, vinícolas tradicionais do Estado passaram a plantar uvas na Fronteira Oeste para complementar o abastecimento de unidades na Serra. Porém, em função do transporte, que chega a 400 quilômetros em alguns casos, essas empresas optaram por vinificar na Campanha, tanto para facilitar o processo quanto para preservar a qualidade dos frutos.

A Nova Aliança, por exemplo, expandiu a atuação para Santana do Livramento, além das fábricas de Flores da Cunha e de Farroupilha. Na Campanha, são elaborados 100% dos vinhos finos e espumantes da cooperativa. Os vinhedos ficam na antiga Fazenda Santa Colina, onde um grupo japonês iniciou a plantação na década de 1980.

Já o Grupo Miolo adquiriu, em 2009, a norte-americana Almadén, em Santana do Livramento, que cultivava uvas desde 1973 na região. Antes disso, a companhia já havia instalado o projeto Seival em Candiota, entre 2000 e 2001.

“Em 2007, foi feita a primeira vinificação na vinícola do Seival. Antes a uva era transportada para a Serra, mas é óbvio que o processo de colheita, o transporte, o tempo, enfim, era bastante oneroso. Então, foi feita a vinícola aqui (em Candiota) para ganhar tempo e também ter o ganho de qualidade para processar a uva mais fresca possível”, explica o engenheiro agrônomo do grupo Alécio Demori.

O Seival, que já soma 200 hectares, adota a estratégia de adensamento e colheita mecanizada. “Com o aumento de densidade de plantas, buscamos manter uma produtividade alta por hectare, mas com uma quantidade menor de quilos de uva por planta”, explica Demori. Segundo ele, isso sobrecarrega menos a videira individualmente, e a distribuição fica mais equilibrada no espaço. “Conseguimos nutrir melhor e ter uma uva mais equilibrada, tendo uma quantidade menor de quilos, principalmente nos tintos.”

A técnica é difundida em outras regiões, mas, como o solo da Campanha é mais plano, há maior facilidade no uso de equipamentos estreitos necessários para passar entre as fileiras, com menor risco de tombamento em comparação às áreas de Serra.

Belezas e cultura regional são atrativos para os turistas

Enoturismo atrai visitantes na vinícola Cordilheira de Sant’Ana

A atividade rural da Campanha tem sido muito associada ao turismo. Diversas vinícolas oferecem passeios, degustação de vinhos, piqueniques e harmonização com itens da culinária regional. Na Cordilheira de Sant’Ana, em Santana do Livramento, a coordenadora de enoturismo e sommelier, Márcia Borges, ressalta que a procura foi bastante intensificada durante a pandemia, já que as atividades costumam ocorrer ao ar livre em parte dos 46 hectares de área, sendo 20 hectares com vinhas. Quem agenda uma visita geralmente recebe informações sobre o manejo, a vinificação e as diferenças entre cada rótulo.

Percebendo esse movimento como uma oportunidade para os negócios locais, o Sebrae-RS reuniu ações como a organização de uma carta de vinhos do Pampa e do cardápio Sabores do Pampa, além de prestar assessoramento aos empreendedores. A gestora de Turismo do Sebrae-RS, Elis Silva, explica que o setor turístico tende a desenvolver a economia da região de forma ampla.

“Por isso, estimulamos que os empreendimentos trabalhem em conjunto”, observa.

Apesar do avanço, ainda há desafios a enfrentar, como as grandes distâncias, mesmo que a região conte com um aeroporto em Uruguaiana.

Nesse contexto, a prefeitura de Bagé também tem buscado atrair o público para a cidade, aliando a produção de vinhos e outras culturas à história. O secretário municipal de Turismo, Gustavo Andrade, destaca que o fronteiriço é conhecido por ser um povo desconfiado, mas está mais flexível e abrindo seus estabelecimentos para mostrar os modos de produção e toda a trajetória campeira a quem quiser conhecer.

Olivas também são beneficiadas pelo clima

Da mesma forma que as características da Campanha favorecem o plantio de uvas, também são adequadas para as olivas. Por isso, a região se destaca nessa cultura. A Cerros de Gaya, do casal Eveline Previtali e André Previtali, já possuía vinhedo desde 2012, com as variedades cabernet sauvignon, chardonnay, merlot pinot noir e tannat, em uma área de 12 hectares, e passou a investir nas oliveiras em Dom Pedrito.

Já a Viridi implantou o primeiro olival em 2016 e, em 2020, ocorreu a primeira colheita em uma área de 10 hectares, com 2,3 mil árvores em Santana do Livramento. A fundadora Zelia Maciel conta que a família se dedica a outras culturas agrícolas e decidiu entrar nesse mercado, com azeites de oliva extravirgens, produzidos de forma sustentável e colheita manual.

Fonte: Correio do Povo