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Mel gaúcho na expectativa de atender à União Europeia

Agro

23 de janeiro de 2026

Mel gaúcho na expectativa de atender à União Europeia
A produção nacional é de 60 mil toneladas por ano, e normalmente 60% é exportada
Foto : Alberto Marsaro Júnioir / Embrapa Trigo / Divulgação

A apicultura gaúcha, historicamente uma das duas mais importantes do Brasil, ao lado da paranaense, tem grandes expectativas em conquistar espaço no mercado da União Europeia a partir do acordo assinado entre aquele bloco e o Mercosul.

O Estado, assim todo o segmento no Brasil, normalmente exporta 60% da produção que soma 60 mil toneladas em nível nacional, enquanto o mercado doméstico absorve os 40% restantes. O principal cliente externo são os Estados Unidos, que mantêm sobre o produto o “tarifaço” de 50% desde agosto do ano passado, o que deverá impactar as vendas durante este ano, já que os negócios de 2025 estavam fechados antes da entrada em vigor da sobretaxa.

Mas para conquistar os europeus, serão necessárias negociações a ajustes, explica o professor permanente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Aroni Sattler, integrante da Comissão Técnica Científica da Federação Apícola do RS (Fargs) e sócio-colaborador da Associação Gaúcha de Agricultores.

“O que tem é uma exigência muito grande. E isso vai aumentar quanto ao nível de resíduos aceitáveis. Essa é uma limitação, porque a gente tem ainda alguns problemas com dessecantes e fungicidas”, ressalva o especialista, referindo-se às culturas agrícolas pulverizadas com defensivos em cujas flores as abelhas retiram o néctar a ser transformado em mel.

Sattler lembra que os produtos usados nas lavouras não causam mal às abelhas, pois são específicos para as plantas cultivadas, mas a detecção da presença no mel pode causar reações nos europeus. “São dois produtos usados na agricultura especialmente, e que não matam as abelhas de forma aguda.

E alguns, quando aplicado de forma adequada, não causam problema maior, ocorrer uma contaminação muito leve, que os nossos laboratórios não detectam ou são níveis toleráveis pela legislação brasileira, mas nem sempre são tolerados no mercado europeu”, descreve.

Barganha europeia

Porém, argumenta o professor, a questão é mercadológica: quando o mel importado do Brasil passa a tomar mais espaços no mercado europeu, o que naturalmente prejudica os produtores locais, acabam sendo estabelecidas barreiras ao produto brasileiro, justificadas pelos resíduos.

“E aí quando há uma demanda reprimida, o que eles fazem? Exigem nível menores ainda. Isso é uma forma de barganha, que qualquer país pode e faz. Essa é uma preocupação que a gente vai tratar daqui para frente, para que se crie normas de controle de qualidade”, sugere Sattler.

Sattler menciona os recentes protestos dos franceses contra o acordo comercial União Europeia-Mercosul como um exemplo da reação corporativista de agricultores contra as importações de produtos mais competitivos, como é o caso do mel brasileiro.
Principais destinos
Os Estados Unidos representam de 75% a 80% dos embarques brasileiros, e a Europa em torno de 15%, sobretudo a Alemanha, além da Inglaterra (país que não integra a União Europeia), mas o professor entende que será possível ampliar a fatia dos europeus nos embarques a partir do acordo assinado.

“Abre a expectativa do mercado europeu se a gente conseguir contemplar as exigências europeias, e claro, também controlar essa pressão dos produtores europeus que estão se manifestando contra em alguns setores”, analisa. Além disso, o mercado europeu sempre foi atendido pela Ucrânia, o que não tem ocorrido nos últimos dois anos em razão da guerra com a Rússia.

Além de se ajustar às exigências europeias e ainda seguir na expectativa da retirada da sobretaxa por Donald Trump, Sattler lembra que cabe aos apicultores brasileiros e gaúchos ampliarem a produção e produtividade, para poder seguir no atendimento também do mercado interno. “Se a gente aumentar a nossa produção e também a produtividade, mais quilos de mel por colmeia/ano, vamos ter condições de concorrer com os mercados externos”, entende.

Neste sentido, o segmento espera que o mel seja utilizado na merenda escolar, o que ampliaria em muito a demanda pelo produto.

Atividade em todo o estado
A apicultura é praticada no Rio Grande do Sul em quase todos os municípios. Seja em propriedades de agricultores familiares, como uma renda complementar da propriedade, ou por apicultores profissionais, cada qual com duas mil a três mil colmeias, que são justamente os que atendem à exportação. Segundo Sattler, cada perfil de apicultores geram cerca de 50% da produção gaúcha, que em anos normais é de 8 mil a 9 mil toneladas.

No ano passado a produção foi prejudicada pelo clima, mas a expectativa para 2026 é de recuperação. “Nós tivemos uma primavera muito boa, e a expectativa para o outono, mas, principalmente, o fim de verão, com a safra da principalmente do mel de soja na região Campanha, Missões e Planalto”, conta o professor, que ainda menciona boas perspectivas para outras regiões, como a Campos de Cima da Serra e a Metade Sul.

Fonte: Correio do Povo