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Por que algumas lojas fazem você querer entrar?

Coluna de Daniel Rodighero Instagram: @danielrodighero
Por que algumas lojas fazem você querer entrar?
Antes mesmo de conhecer um produto, o ambiente já pode estar transmitindo informações sobre ele. Cores, formas, iluminação e organização influenciam a maneira como percebemos um espaço.
Foto: Divulgação

1.  Você entra porque quer ou porque o ambiente convidou você?

Você está caminhando pela rua ou passando de carro. Existem duas lojas lado a lado. Uma delas chama sua atenção: a fachada parece organizada, a entrada é convidativa, existe algo que desperta curiosidade. Você olha para dentro e mesmo sem estar procurando exatamente aquele produto, sente vontade de entrar. A outra loja pode ter produtos excelentes, bons preços e um atendimento igualmente bom, mas não desperta a mesma vontade. Por que isso acontece?

2.  Antes de olhar o produto, nós olhamos o ambiente.

Percebemos o espaço muito rapidamente – e na maioria das vezes, de forma inconsciente. As formas e cores da fachada, o modelo da porta de entrada, a iluminação e o formato da vitrine, bem como os materiais, organização e proporções do conjunto formam um todo que transmite uma mensagem importante – a fachada de uma loja faz parte da estratégia de comunicação com o público daquele comércio.

Já aconteceu com você de passar em frente a uma loja, achar a fachada bonita e querer entrar na loja, sem conseguir explicar o porquê? Se sim, fique tranquilo: isto acontece com todos nós, exatamente pelo que conversamos no parágrafo anterior. Talvez você não tenha pensado conscientemente, “gostei porque a composição cromática da fachada é equilibrada.” Talvez, a composição cromática nem tenha passado pelos seus pensamentos. Mas tenha certeza: se você sentiu vontade de entrar naquela loja, sem saber o porquê, o conjunto da fachada te fez pensar: “essa loja parece boa.” A arquitetura comunica mesmo quando não estamos conscientemente analisando a arquitetura.

Assim como o seu dormitório pode contribuir para criar uma atmosfera de descanso e a iluminação pode favorecer determinadas atividades, os ambientes comerciais também podem ser projetados para funcionarem como convites ao seu público, favorecendo a aproximação e a experiência com o negócio.

3.  As cores estão falando com você.

Sim, as cores transmitem uma mensagem àqueles que estão expostos a elas. Mas não pense que as simplificações são verdadeiras: aquela história de que vermelho representa paixão, azul traz tranquilidade e que o amarelo proporciona alegria até pode

ser verdadeira em alguns casos específicos, mas não podem ser generalizadas nem tratadas como verdades absolutas.

A percepção das cores depende de contexto, combinação, intensidade, iluminação, cultura, experiência individual e finalidade do ambiente. Uma parede pintada de amarelo em uma lanchonete pode produzir uma percepção completamente diferente se for utilizado em uma clínica odontológica. Sem contar que a mesma cor pode parecer diferente, dependendo das cores que estão ao seu redor e da iluminação que recebe.

Não existe uma cor universalmente adequada para todos os negócios. Existe uma cor mais ou menos adequada para determinada intenção.

4.  E as formas?

Não são apenas as cores que comunicam. As formas também transmitem uma mensagem tão forte quanto as cores. Compare, por exemplo:

  • linhas retas × linhas curvas;
    • formas geométricas × formas orgânicas;
    • composição simétrica × composição assimétrica;
    • espaços compactos × espaços amplos.

Uma forma não “produz” automaticamente uma emoção, mas a composição formal participa da percepção do ambiente. Pensa comigo: uma clínica infantil deveria transmitir exatamente a mesma sensação de uma empresa de tecnologia? E uma loja de joias? E uma oficina mecânica?

Cada negócio tem a sua identidade e cada estratégia de vendas necessita de cores, formas e iluminação adequadas ao seu modelo de negócio.

5.  O ambiente precisa combinar com aquilo que você vende.

Existe uma diferença entre simplesmente fazer um ambiente “bonito” e fazer um ambiente coerente com o negócio. Imagine uma empresa que deseja transmitir, sofisticação, confiança, inovação, proximidade, tradição, dinamismo e exclusividade. A arquitetura pode ajudar a construir essa mensagem por meio de uma combinação de elementos.

Há estratégias de design para empresas que desejam atender um público seleto e sofisticado, bem como para as empresas que desejam trabalhar com o varejo para público geral. Há estratégias para projetos de restaurantes com culinária artesanal e para restaurantes com pratos acessíveis. O que não existe é uma única estratégia que atenda a todos os públicos de forma eficiente – e é aí que entra o arquiteto, para avaliar as necessidades do negócio, em conjunto com os empresários e propor um conjunto de soluções arquitetônicas que esteja alinhado com os seus objetivos.

6.  Não é apenas vender. É criar uma experiência.


Até agora, focamos na fachada como “cartão de visitas” e comunicador inicial com o cliente. Hoje, a criação de experiências tem recebido cada vez mais atenção, e esse também é um campo em que o arquiteto pode atuar. Depois que o cliente entra, outras decisões arquitetônicas continuam influenciando sua experiência: a circulação dentro da loja, a disposição dos produtos, os pontos de destaque, a iluminação, o nível de conforto oferecido, a acústica ambiental, a escala do empreendimento, o mobiliário e a facilidade de encontrar aquilo que se procura podem ser elencados como importantes aspectos na consolidação da experiência do usuário. O ambiente não termina na fachada.

Uma loja pode ter uma fachada excelente, mas dificultar a circulação. Um restaurante pode ser bonito, mas desconfortável. Uma clínica pode parecer sofisticada, mas transmitir frieza. Um escritório pode ser moderno, mas não favorecer concentração. O projeto precisa considerar o percurso completo do usuário e a maneira como cada etapa dessa experiência pode afetá-lo. Afinal, arquitetura também é emoção e conexão.

7.  É aqui que entra a neuroarquitetura.

A neuroarquitetura parte justamente da compreensão de que os espaços que ocupamos não são neutros. Eles podem influenciar nossa percepção, nossa experiência e nosso comportamento. Projetar um ambiente comercial, portanto, não deveria significar apenas escolher revestimentos, móveis e cores bonitas. É preciso pensar em quem utilizará aquele espaço, o que queremos que essa pessoa perceba e como queremos que ela se sinta durante sua permanência ali.

8.  Antes de reformar, pergunte: o que o meu ambiente está dizendo?

Talvez sua loja não precise simplesmente de uma fachada nova. Talvez precise comunicar melhor aquilo que você já oferece. Talvez seu escritório não precise apenas parecer mais moderno. Talvez precise transmitir aos clientes a confiança que você deseja que eles sintam. Antes de escolher uma cor, um revestimento, uma luminária ou um móvel, talvez devêssemos perguntar: o que eu quero que as pessoas percebam quando entrarem aqui? A resposta a essa pergunta pode ser o ponto de partida para todas as decisões de projeto que vêm a partir daí.