Terça-feira, 03 de Novembro de 2026

Terça-feira
03 Novembro 2026

Tempo agora

Tempo limpo 30
Tempo limpo 31°C | 19°C
Chuva
Qua 04/11 24°C | 17°C
Parcialmente nublado
Qui 05/11 24°C | 15°C

Quando produzir deixa de valer o risco

Entrelinhas

03 de novembro de 2026

Quando produzir deixa de valer o risco
Foto: Pexels / Divulgação

O Brasil é um país de oportunidades extraordinárias. Temos terras férteis, água, recursos naturais e um clima que permite produzir praticamente o ano inteiro. Poucos países receberam tantas vantagens da natureza. Ainda assim, seguimos desperdiçando nosso potencial por problemas que nós mesmos criamos.

Nossa família passou gerações investindo na agricultura, na indústria, empreendendo, gerando empregos e assumindo riscos. Sempre acreditamos que produzir e investir eram os melhores caminhos para construir prosperidade.

Mas hoje existe uma pergunta que acredito estar na cabeça de muitos empresários: vale a pena continuar investindo no Brasil?

Com aplicações financeiras capazes de proporcionar, por exemplo, 12% líquidos ao ano, cada R$ 10 milhões podem render R$ 1,2 milhão anualmente, sem precisar administrar uma empresa, enfrentar riscos produtivos, legislação trabalhista, exigências ambientais, mudanças tributárias e uma insegurança jurídica que dificulta qualquer planejamento.

Não sou contra direitos trabalhistas ou proteção ambiental. Sou contra o excesso de burocracia, a imprevisibilidade e os custos que comprometem nossa competitividade.

E aqui está uma das maiores contradições da política econômica brasileira: governos que discursam contra a concentração de riqueza podem acabar criando condições em que quem já possui patrimônio ganha ainda mais dinheiro, enquanto quem depende de crédito paga juros elevados.

O empresário capitalizado pode esperar, receber rendimentos e até aproveitar oportunidades para comprar imóveis, terras e empresas de quem está pressionado financeiramente. Já a classe média endividada e o pequeno empreendedor enfrentam uma realidade muito diferente.

Na minha avaliação, a condução econômica do governo Lula aprofunda esse problema. Preocupam-me os gastos públicos, a busca constante por arrecadação e a falta de previsibilidade para quem pretende investir. Um país não pode exigir competitividade de suas empresas enquanto torna cada vez mais difícil produzir.

Mas seria cômodo colocar toda a culpa nos governantes.

Existe uma frase conhecida que diz que o povo tem os políticos que merece. É dura, mas merece reflexão. Quando alguém encontra um caminhão tombado e, antes de verificar se o motorista precisa de socorro, preocupa-se em saquear a carga, o problema não está apenas em Brasília. Está também nos valores de uma parcela da sociedade.

É a mesma mentalidade de quem recebe troco a mais e fica quieto, fura uma fila ou procura levar vantagem sempre que aparece uma oportunidade.

Não são atitudes de todos os brasileiros, evidentemente. Mas revelam uma tolerância preocupante com a desonestidade, especialmente quando ela parece trazer algum benefício pessoal.

E talvez aí esteja uma das explicações para nossa tolerância com determinadas práticas políticas. Quem considera aceitável levar pequenas vantagens no cotidiano pode ter dificuldade em condenar

comportamentos semelhantes quando praticados por quem exerce o poder.

O problema brasileiro, portanto, não é apenas político ou econômico. É também cultural.

Precisamos de uma sociedade que valorize honestidade, responsabilidade, educação, trabalho e compromisso com o coletivo. Uma transformação dessa dimensão pode levar gerações, talvez quarenta anos ou mais. E, sinceramente, não consigo enxergar hoje sinais suficientes de que estejamos começando.

Creio que os empresários brasileiros continuam com a mesma veia empreendedora. Gostariam de seguir investindo, produzindo, gerando empregos e fazendo o dinheiro circular, movimentando toda a cadeia econômica. Afinal, é assim que a roda da economia gira.

Mas empreender, por si só, já é um desafio. Envolve riscos, incertezas, dedicação e decisões difíceis. Quando acrescentamos a isso juros elevados, tributação pesada, legislação complexa e insegurança jurídica, o desafio se torna ainda maior. Não basta ter capital e vontade. É preciso ter confiança e coragem para assumir novos riscos.

E tenho a impressão de que essa perda de confiança não é uma sensação exclusivamente minha, mas algo compartilhado por uma parcela significativa do empresariado brasileiro.

Faço questão de deixar claro que esta é minha percepção pessoal, não representando necessariamente a opinião da minha família ou das empresas das quais participamos.

Não acredito que esteja faltando vontade de empreender. O que está faltando é confiança no futuro e coragem para enfrentar tantos obstáculos adicionais.

E quando um país começa a tirar a coragem de quem quer produzir, precisa refletir seriamente sobre o caminho que está seguindo.