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Entre a promessa de agilidade e o trabalho de conferir

Entrelinhas

30 de outubro de 2026

Entre a promessa de agilidade e o trabalho de conferir

A inteligência artificial entrega um texto em segundos. Saber se ele está certo pode levar muito mais tempo. Para o jornalismo, essa distância entre receber uma resposta e poder confiar nela merece tanta atenção quanto as novidades de cada ferramenta.

Nesta semana, acompanhei o webinário “IA no jornalismo: como as redações brasileiras estão se adaptando”, promovido pelo Observatório da Imprensa e pelo grupo de pesquisa COM+, da ECA-USP. O encontro apresentou o J-Core AI, um modelo de análise das estratégias de adoção da inteligência artificial por veículos brasileiros. A pesquisa mostra caminhos distintos entre empresas tradicionais e nativas digitais, atravessados pela dependência das grandes plataformas de tecnologia.

A discussão me fez pensar no que acontece antes de qualquer estratégia se transformar em rotina: como estamos preparando os jornalistas para trabalhar com essas ferramentas?

Há uma diferença entre conseguir usar uma IA e compreender o suficiente sobre ela para incorporá-la ao trabalho. A facilidade de abrir uma conversa, fazer um pedido e receber algo bem escrito pode esconder essa distância. Aprender por tentativa e erro permite descobertas. Mas, quando o resultado será publicado como informação, a intuição precisa vir acompanhada de método.

É nesse ponto que vejo uma conversa ainda necessária entre academia, redações e profissionais. Como ensinar a avaliar uma resposta? Como reconhecer o que ficou de fora de um resumo? Como decidir quais tarefas podem ser apoiadas pela ferramenta e quais exigem outro caminho? E como oferecer essa formação também a quem já está trabalhando, com prazos apertados e pouco espaço para experimentar?

Incluir a IA na formação jornalística exige mais do que apresentar ferramentas ou ensinar a formular comandos. Exige discutir apuração, autoria, proteção das fontes, critérios de verificação e responsabilidade editorial dentro dessas novas condições de trabalho. As universidades precisam de espaço para investigar e experimentar; as redações precisam participar dessa conversa e criar condições para o aprendizado.

O trabalho do jornalista já envolve lidar com documentos, bases de dados, diferentes formatos e uma circulação contínua de informações. Nesse cenário, a possibilidade de organizar materiais e reduzir tarefas repetitivas tem valor. A dificuldade começa quando a rapidez da entrega passa a ser tomada como prova de eficiência.

Pensemos em um resumo de um documento extenso. Ele chega organizado, com frases claras e os principais pontos aparentemente resolvidos. Para utilizá-lo, porém, o jornalista precisa voltar ao original, conferir números, recuperar contextos e verificar se uma ressalva importante desapareceu. Se o resumo orientar a pauta antes dessa conferência, uma omissão pode influenciar até as perguntas que serão feitas.

Conferir sempre fez parte do jornalismo. A questão é que a IA acrescenta uma etapa cuja utilidade também precisa ser avaliada. Quando revisar e corrigir a resposta exige mais esforço do que executar a tarefa diretamente, a economia prometida não se confirmou. O tempo de geração é apenas uma parte da conta.

Isso não elimina as possibilidades de ganho. Uma transcrição preliminar de entrevista, conferida com o áudio, pode ajudar. A organização inicial de documentos e a sugestão de categorias para explorar uma base de dados também podem ser úteis. São tarefas com objetivos delimitados, fontes disponíveis para comparação e resultados que precisam passar por critérios claros de avaliação.

O ganho precisa aparecer no processo completo: preparar o material, orientar a ferramenta, revisar a entrega e corrigir os problemas. Precisa aparecer, sobretudo, no destino do tempo economizado. Ele permite ouvir mais uma fonte, aprofundar uma pergunta, sair da redação? Ou se transforma apenas na expectativa de produzir mais?

Reinventar o trabalho jornalístico exige condições para aprender e discernimento para escolher. Essa responsabilidade envolve também quem forma profissionais, administra redações e estabelece metas.

Antes de celebrar quantos textos uma ferramenta consegue produzir, quero saber quanto tempo e atenção ela nos devolve para apurar. É nessa conta que a promessa da inteligência artificial precisa se sustentar.