Ninguém nasce sênior
28 de outubro de 2026
Todo mundo quer contratar alguém experiente.
Alguém que entenda o problema e saiba lidar com aquilo que saiu diferente do planejado. De preferência, uma pessoa que já tenha cometido os principais erros em algum outro lugar.
Dá pra entender. Contratar alguém que está começando exige tempo, acompanhamento e disposição para explicar coisas que, para quem já trabalha com aquilo há anos, parecem óbvias.
Só que houve uma época em que essas coisas também precisaram ser explicadas para nós.
A inteligência artificial acrescentou uma tentação a essa dinâmica. Se uma ferramenta consegue executar parte do trabalho que antes entregaríamos a um iniciante, contratar e ensinar está virando um investimento dispensável?
O trabalho continua acontecendo e o prazo é cumprido. A dúvida é: o que acontece com a pessoa que aprenderia fazendo aquele trabalho? Daqui a alguns anos, quando precisarmos de alguém experiente, essa conta pode voltar para a nossa mesa.
Boa parte da experiência que torna alguém “casca-grossa”, como dizemos aqui na Upside, se constrói no contato com situações reais, que nenhum manual ou ferramenta de IA consegue antecipar por completo. Sempre tem aquele cliente que pede uma coisa e, na verdade, precisa de outra.
É nesse contato com o mundo real que começamos a desenvolver critérios e “engrossar a casca”. Passamos a perceber quando vale a pena insistir em um caminho ou mudar de direção.
Esse aprendizado exige tentativa e erro. Alguém precisa nos deixar tentar, acompanhar nossas decisões e explicar por que aquilo que parece uma ótima ideia pode trazer um problema maior.
Por isso, na minha rotina como empreendedor e professor, percebo um novo desafio inevitável: precisamos redesenhar a formação de quem está chegando. Passar meses copiando informações de um lugar para outro ou aceitando respostas de uma ferramenta de IA sem procurar entendê-las pode ensinar muito pouco. Ter uma resposta à disposição pode dar a impressão de que já entendemos o problema, mas a experiência só ganha valor quando existe a oportunidade de compreender o contexto e de assumir a responsabilidade pelo próprio trampo.
A IA pode, sim, encurtar o caminho, mas só se alguém ensinar a questionar o que ela entrega. Os novatos podem acompanhar as conversas com os clientes, entender as objeções durante uma negociação e participar dos ajustes. Podem descobrir, com orientação, por que muitas vezes uma resposta convincente ainda precisa ser revista ou refinada.
O tempo economizado pela tecnologia também pode abrir espaço para ensinar, mas destinar esse espaço à formação continua sendo uma decisão de quem lidera.
Existe ainda uma contradição que ultrapassa os limites de uma empresa. Contratar profissionais prontos pode funcionar enquanto alguém, em algum lugar, continua investindo em prepará-los. Se todos decidirem esperar que essa formação aconteça na empresa dos outros, de onde virão os próximos especialistas?
Vale olhar para o seu time e perguntar quem está tendo a oportunidade de aprender com os profissionais que já sabem. O currículo que vamos exigir no futuro começa nas oportunidades que estamos dispostos a oferecer hoje.
Ninguém nasce sênior. Nem quem hoje só quer contratar gente pronta.
Por Anderson Brizola

Anderson Brisola é empreendedor e fundador da Upside Inteligência Web.
Fascinado pela internet desde cedo, transformou sua curiosidade por tecnologia em profissão.
Nerd assumido e entusiasta da inovação, gosta de explorar as conexões entre o mundo digital, os negócios e o comportamento humano.
@andybrisola