Produzir bem não basta. É preciso fazer a conta fechar
20 de outubro de 2026
Conheço o Mato Grosso desde o ano 2000 e sou um apaixonado por aquele estado. Tive a oportunidade de acompanhar de perto uma transformação fantástica, que fez daquela região uma das maiores potências agrícolas do mundo.
Lembro de Lucas do Rio Verde, Sorriso e Sinop quando ainda eram cidades pequenas. Sinop tinha seus 30 mil habitantes, Sorriso cerca de 15 mil e Lucas pouco mais de 10 mil. Hoje são cidades que cresceram enormemente, não apenas em população, mas em desenvolvimento, infraestrutura e oportunidades.
Primeiro veio a expansão das lavouras, depois a consolidação da segunda safra, principalmente de milho. Agora estamos vendo uma nova fase, com a industrialização. O milho vira etanol, a soja é processada, os subprodutos alimentam bovinos, suínos e aves, surgem frigoríficos, indústrias e milhares de empregos. É uma cadeia que vai agregando valor à produção e criando novas oportunidades.
É uma história da qual o Brasil deve se orgulhar.
Mas, olhando para um estado com tantas vantagens, surge uma pergunta interessante: por que encontramos produtores enfrentando dificuldades financeiras, alguns chegando até à recuperação judicial?
Não é um problema exclusivo do Mato Grosso. Acontece no Rio Grande do Sul, no Paraná, em Goiás e em qualquer região agrícola do mundo. Uso Mato Grosso como exemplo justamente por ser nosso grande celeiro, com enormes oportunidades de crescimento e, em muitas regiões, uma condição climática mais estável que a nossa no Sul.
Em 2013, visitando uma fazenda na região de Grand Island, em Nebraska, nos Estados Unidos, vivi uma situação que nunca esqueci.
Andávamos pela propriedade, que tinha aproximadamente 90% da área irrigada, conversando sobre agricultura, preço das terras e arrendamentos. Em determinado momento, o produtor comentou quanto pagava por uma área arrendada. O valor me chamou a atenção de tão alto.
Perguntei se realmente valia a pena pagar tudo aquilo.
A resposta foi simples: “Se eu não pegar, outro pega.”
Na hora não falei nada, mas fiquei pensando: e o que importa se outro vai pegar? A pergunta não deveria ser quem vai plantar aqueles 100 acres a mais, mas quanto vai sobrar no final.
Porque, dependendo do negócio, o produtor acaba tirando dinheiro da terra própria, que dá resultado, para cobrir o prejuízo daquela área arrendada. Trabalha mais, produz mais, movimenta mais dinheiro e, no fim, ganha menos.
Anos depois, aquele produtor acabou tendo que sair da atividade agrícola. E o que mais chama a atenção é que o problema dele nunca foi produzir. Tinha boas terras, 90% da área irrigada e tecnologia. Mas os arrendamentos caros e os investimentos em terras acabaram comprometendo a viabilidade financeira do negócio.
No fim, produzia bem, mas a conta não fechava.
Esse exemplo serve para qualquer lugar do mundo.
E existe outro fator que vem complicando muito a vida do produtor brasileiro: os juros.
Muitas expansões foram planejadas em momentos de crédito mais barato. Naquela época, o custo financeiro pesava muito menos nas decisões. Só que o cenário mudou. Hoje temos juros elevados, crédito mais caro e, em muitos casos, mais difícil de conseguir.
A falta de controle das contas públicas e o crescimento dos gastos do governo também contribuem para esse ambiente de juros altos, embora não sejam os únicos fatores. E quem produz acaba pagando parte dessa conta.
Quando juntamos preços das commodities pressionados, custos de produção elevados e juros altos, temos praticamente uma tempestade perfeita.
Uma operação que fechava a conta alguns anos atrás pode deixar de fechar hoje, mesmo mantendo a produtividade. E quem assumiu dívidas contando com aquele cenário anterior acaba sentindo ainda mais.
É aí que precisamos olhar com atenção para a diferença entre patrimônio, faturamento e resultado.
Costumo dizer que, muitas vezes, o agricultor é um pobre milionário.
Pode ter um patrimônio de R$ 50 milhões ou R$ 100 milhões e, mesmo assim, não ter R$ 200 mil ou R$ 500 mil disponíveis para pagar uma conta que venceu.
E isso tem uma explicação. Quando colocamos na ponta do lápis o valor de mercado da terra e aquilo que ela realmente deixa de lucro, depois de descontar todos os custos, inclusive a depreciação, vemos que a rentabilidade muitas vezes fica na faixa de 2% a 4% ao ano sobre o patrimônio.
Uma terra que vale R$ 100 mil por hectare, por exemplo, pode deixar de R$ 2 mil a R$ 4 mil de lucro líquido anual. Existem regiões e anos em que esse resultado é maior, assim como outros em que é menor. Mas essa é uma faixa que ajuda a entender a realidade de muitas propriedades.
E ainda existe uma diferença entre ter lucro e ter dinheiro disponível. O resultado pode estar comprometido com investimentos, estoques ou pagamentos futuros.
Agora imagine essa mesma atividade, com uma rentabilidade de 3% ao ano sobre o valor da terra, tendo que carregar dívidas com juros de 12% ou 15%. É uma conta que exige muito cuidado. Não significa que toda dívida seja ruim, mas mostra como o custo financeiro pode consumir rapidamente o resultado da produção.
Por isso, faturar muito não significa ganhar muito. E ter muito patrimônio não significa ter tranquilidade financeira.
O crescimento é importante, e foi justamente ele que transformou o Mato Grosso no que é hoje. Não existe nada de errado em comprar terras, arrendar novas áreas ou ampliar uma operação. Pelo contrário, muitos produtores construíram negócios extraordinários dessa forma.
Mas precisamos saber quanto cada novo hectare realmente acrescenta ao resultado e, principalmente, quanto risco estamos assumindo para crescer.
É claro que nem sempre as dificuldades financeiras são resultado de uma gestão ruim. Na agricultura, mesmo quem administra bem pode enfrentar problemas sérios. Quando se acumulam quatro ou cinco safras difíceis, com perdas climáticas, preços baixos e custos elevados, até uma propriedade bem administrada pode ter dificuldades para se recuperar. Afinal, nenhuma gestão, por melhor que seja, consegue suportar prejuízos indefinidamente.
Ainda assim, acredito que muitas das diferenças entre quem atravessa uma crise e quem acaba sucumbindo a ela começam nas decisões tomadas durante os anos bons.
Existe um ditado que diz que, enquanto alguns choram, outros vendem lenços.
Na agricultura é assim também. Enquanto alguns precisam vender patrimônio, reduzir áreas ou renegociar dívidas, outros estão capitalizados, comprando, arrendando e aproveitando oportunidades.
E isso acontece tanto nas regiões de clima mais difícil quanto naquelas que oferecem as melhores condições de produção.
Continuo acreditando muito no Mato Grosso e em todo o potencial que aquele estado ainda tem pela frente. Mas a lição vale para qualquer produtor, em qualquer lugar.
Não basta produzir bem, ter uma grande propriedade ou aumentar o faturamento. É preciso fazer a conta fechar e, principalmente, ter dinheiro para pagar os compromissos quando eles vencem.
Porque, na agricultura, assim como em qualquer negócio, o caixa é rei.
No fim das contas, não é o tamanho do patrimônio que garante a continuidade de uma operação, mas sua capacidade de gerar resultado e, acima de tudo, manter a liquidez necessária para continuar produzindo.
Por Fernando Stapelbroek Trennepohl

Apaixonado pelo agro desde sempre, comecei a trabalhar aos 15 anos na fazenda Anna (de meus avós), onde iniciamos o projeto Aquarius (o projeto de agricultura de precisão mais antigo do Brasil). No final de 2005 abri a Evolução Agrícola, empresa de prestação de serviços em agricultura de precisão.
Logo em janeiro de 2007 fui convidado pela família para atuar na Stara, onde cheguei a diretor comercial e permaneci até setembro de 2013 quando iniciamos as atividades na agropecuária Franciscus em Divinópolis do Tocantins.
Hoje atuo na agropecuária Franciscus, na fazenda Mataboa em não me toque e faço parte do conselho administrativo da Stara.