Estratégias para enfrentar o El Niño na Região Sul
06 de outubro de 2026
Equipes da Embrapa nas cinco regiões brasileiras detalharam os riscos do El Niño 2026/2027 e definiram recomendações adaptadas a cada cenário climático e produtivo. Entre as quais estão o uso do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), a escolha de cultivares adaptadas, o escalonamento da semeadura e medidas de manejo e conservação da água e do solo.
Enquanto produtores da Região Sul precisam se preparar para chuvas intensas e excesso de água, em grande parte do Centro-Oeste, Norte, Nordeste e Sudeste o fenômeno deve impor o desafio oposto: escassez de água, irregularidade das chuvas e temperaturas elevadas.
As diferenças não se limitam às fronteiras regionais: os riscos também mudam conforme a localização, a cultura, o sistema produtivo e o período do ciclo agrícola.
Os contrastes aparecem em todo o mapa. No Centro-Oeste, Mato Grosso e Goiás apresentam maior risco de seca, enquanto o sul de Mato Grosso do Sul tende a receber mais chuva. No Nordeste, a preocupação é com a menor oferta de água; no Norte, a redução dos níveis dos rios pode afetar navegação, transporte e abastecimento.
O Sudeste reúne áreas mais secas e mais chuvosas até dentro de um mesmo estado, enquanto, no Sul, o excesso de precipitação amplia os riscos de encharcamento, erosão e doenças nas lavouras.
“O trabalho aprofunda as 163 medidas elaboradas no âmbito do Grupo de Trabalho sobre o El Niño, estabelecido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com a participação de cerca de 50 profissionais da Embrapa e especialistas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet)”, destaca a Embrapa.
Além de reduzir os impactos do El Niño 2026/2027, parte das recomendações pode ser incorporada ao planejamento das propriedades para aumentar a preparação diante de outros eventos e condições climáticas recorrentes, acrescenta a instituição.
Evento on-line
E a Embrapa realiza na próxima sexta-feira, 9, das 10h às 11h30, evento on-line sobre o El Niño 2026/2027, com transmissão pelo canal da empresa no YouTube. Com participação de representantes do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a programação inclui um panorama do fenômeno, o lançamento das notas técnicas com orientações para as cinco regiões e para a gestão de riscos climáticos e um espaço para perguntas do público.
Conforme a Embrapa, na Região Sul o El Niño deve provocar chuvas mais intensas e concentradas, principalmente entre os meses de setembro e dezembro.
“O excesso de precipitação pode causar encharcamento dos solos, erosão e perda de nutrientes, além de dificultar operações como semeadura, aplicação de insumos e colheita. A maior nebulosidade também pode reduzir a radiação solar e prejudicar o desenvolvimento e o enchimento dos grãos”, esclarece.
E a combinação de umidade elevada e períodos prolongados de molhamento das plantas favorece a ocorrência de doenças. Tempestades e ventos fortes também podem provocar danos a lavouras, pomares, florestas e à infraestrutura rural.
Os impactos variam conforme a cultura, a região, a fase do ciclo e o manejo adotado.
“Entre as culturas mais expostas estão os cereais de inverno, arroz irrigado, soja, milho, frutíferas de clima temperado e hortaliças. Nas pastagens, o excesso de chuva pode reduzir a qualidade da forragem, compactar o solo e favorecer sua perda. Na silvicultura, a maior preocupação são os danos provocados por tempestades e ventos fortes”, detalha.
Principais recomendações
● Trigo e outros cereais de inverno: utilizar cultivares mais resistentes a doenças e ao acamamento, escalonar a semeadura, reforçar a cobertura do solo e o monitoramento de doenças e planejar antecipadamente a colheita, a secagem e o armazenamento dos grãos.
● Arroz irrigado: ajustar a época de semeadura para favorecer maior disponibilidade de radiação na fase reprodutiva, utilizar cultivares resistentes ao acamamento, monitorar a brusone e garantir drenagem rápida das áreas. A maior disponibilidade de água da chuva pode reduzir a necessidade de bombeamento.
● Soja e milho: manter o solo protegido, adequar a densidade de semeadura, reforçar o monitoramento de doenças e garantir drenagem superficial eficiente. No milho, o parcelamento da adubação nitrogenada pode reduzir perdas de nutrientes por lixiviação.
● Fruticultura e horticultura: manter a cobertura vegetal do solo, revisar os sistemas de drenagem, ajustar a adubação e intensificar o monitoramento de pragas e doenças. Para hortaliças, o cultivo protegido pode ser uma alternativa.
● Pastagens: reforçar a conservação e a cobertura do solo e adotar medidas para reduzir os efeitos do encharcamento, da compactação e da erosão.
● Silvicultura: acompanhar as condições meteorológicas e adotar medidas preventivas diante do risco de tempestades e ventos fortes, que podem causar danos às árvores e à infraestrutura.
No Sul, prevenção e manejo dos riscos devem caminhar juntos. Além do Zarc e do acompanhamento das previsões, as recomendações incluem escalonar a semeadura, manter o solo protegido, melhorar a drenagem e planejar colheita, secagem, armazenamento e logística.
O planejamento também deve ultrapassar os limites da propriedade e considerar a microbacia hidrográfica, com medidas para controlar o escoamento da água e ampliar a capacidade de enfrentar eventos extremos.
Para o pesquisador da Embrapa Clima Temperado, sediada em Pelotas, e líder da plataforma regional Sul, Ernestino Guarino, a palavra-chave para a região é solo coberto.
Práticas de conservação que garantem a infiltração da água, como terraços e curvas de nível, também devem ser adotadas tanto em períodos de excesso quanto de falta de água, pois aumentam a segurança para o produtor.
O pesquisador também recomenda que o planejamento das atividades agrícolas considere informações divulgadas por fontes oficiais, como a Embrapa, o Serviço Geológico Brasileiro (SGB) e o Inmet.
“Pragas e doenças também são favorecidas pelo aumento da umidade e exigem maior atenção no manejo das lavouras nesse período”, diz.
Fonte: Correio do Povo