Sementes que atravessam gerações: banco de variedades crioulas preserva tradição e incentiva produção saudável em Colorado
30 de setembro de 2026
Um patrimônio agrícola construído ao longo dos anos está ajudando a preservar variedades tradicionais de sementes e, ao mesmo tempo, incentivando a produção de alimentos saudáveis entre agricultores familiares de Colorado. Na unidade local da Ascar/Emater, um banco comunitário reúne mais de 40 variedades de sementes crioulas, mantidas por meio de um trabalho que envolve preservação, multiplicação e troca entre produtores e comunidade.
O espaço é destinado à coleta, armazenamento e conservação de sementes tradicionais não transgênicas. Além de representar uma forma de preservar a diversidade genética da agricultura, a iniciativa busca estimular o cultivo de alimentos para consumo das próprias famílias, inclusive em pequenas áreas.
A reportagem do Grupo Ceres de Comunicação esteve no escritório da Emater de Colorado para conhecer o trabalho. A extensionista Bianca Linhares do Amaral apresentou as variedades disponíveis e explicou que a formação do banco é resultado de um processo construído ao longo de muitos anos.
“Esse trabalho é muito gratificante. A gente tem desenvolvido há muitos anos já dentro do município. Eu estou há 12 anos aqui, mas esse projeto já vinha sendo construído há algum tempo”, relata Bianca.
Entre as sementes preservadas estão diferentes variedades de abóboras, feijões, milho, amendoim e outras cultivares que não são encontradas com frequência no comércio convencional. Algumas delas chegaram ao banco por meio de agricultores que trouxeram sementes de outras regiões.
O intercâmbio também permite recuperar variedades que, embora pouco conhecidas atualmente, fazem parte da história agrícola das comunidades. Um dos exemplos citados é o caramuela, além do maxixe, que não é uma cultura tão comum na região, mas passou a fazer parte da diversidade mantida no espaço.
“O pessoal traz de outras regiões e a gente vai fazendo essa troca. O maxixe é um exemplo, porque não é muito comum na nossa região, mas algumas pessoas trazem de outros lugares”, explica a extensionista.
A experiência de outros municípios também serviu de inspiração para fortalecer a iniciativa. Uma das referências foi Ibarama, no Rio Grande do Sul, onde existe um trabalho voltado à conservação de sementes e à formação de guardiões das variedades tradicionais, incluindo crianças e jovens.
“Ibarama é um município onde existe um resgate e um trabalho muito forte nessa questão da preservação das cultivares da nossa região. Eles têm um banco genético e desenvolvem um trabalho com os chamados guardiões das sementes, que começa ainda com as crianças, os guardiões mirins”, conta Bianca.
A ideia é que as sementes não permaneçam apenas armazenadas, mas continuem sendo cultivadas e multiplicadas. O sistema funciona a partir da troca: o agricultor ou morador recebe determinada variedade, realiza o plantio e, posteriormente, pode devolver sementes ao banco, permitindo que outras famílias também tenham acesso.
“O pessoal traz sementes para nós, leva quem não tem, produz, traz de volta e a gente vai fazendo essa troca”, destaca.
O trabalho também conta com a participação da Secretaria Municipal da Agricultura, especialmente na produção e distribuição de mudas. Entre as principais estão as de tomate e cebola, além de outras variedades produzidas ao longo do ano e destinadas às famílias.
A iniciativa não se limita aos agricultores que vivem no interior. A proposta também contempla moradores da área urbana que possuem hortas domésticas ou pequenos pomares. A produção em espaços reduzidos é vista como uma alternativa para aproximar as famílias do cultivo de seus próprios alimentos.
“A gente incentiva a produção em pequenos espaços. É para o público rural e também urbano. Aqui na cidade, muitas pessoas têm suas hortas e pequenos pomares”, afirma Bianca.
Além do aspecto relacionado à alimentação, o cultivo também pode contribuir para o bem-estar das famílias. Ter contato com a terra, acompanhar o desenvolvimento das plantas e produzir parte dos próprios alimentos são alguns dos benefícios apontados pela iniciativa.
“Cultivar um espaço também traz bem-estar para a família, sem falar na questão alimentar, porque são alimentos de mais qualidade”, ressalta.
O banco de sementes também tem servido como ferramenta para ações comunitárias. A iniciativa recebeu incentivo por meio de um projeto do Banrisul voltado à conservação e circulação de sementes, com possibilidade de ampliar as atividades para diferentes comunidades, sejam elas organizadas formalmente ou por meio de grupos comunitários.
Entre as experiências já desenvolvidas está uma ação junto à comunidade quilombola da Vila Padre Osmar. O trabalho envolveu o levantamento das cultivares existentes e, posteriormente, a distribuição das sementes entre as famílias participantes.