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Quem assume a responsabilidade por educar as crianças sobre os riscos da internet

Educação, Tecnologia

22 de setembro de 2026

Quem assume a responsabilidade por educar as crianças sobre os riscos da internet
Foto: Divulgação

Criar uma criança nunca foi tarefa de uma só pessoa. Ela constrói suas primeiras referências de mundo em casa, na escola, em comunidade e, cada vez mais cedo, também nas telas. Quando esse processo encontra um ambiente de tantas influências e possibilidades, a responsabilidade por ele também se espalha. Para a psicóloga Indianara Sehaparini, “isso também é responsabilidade nossa como sociedade.”

Acompanhar os mais novos na internet também significa querer conhecer genuinamente os espaços por onde eles transitam. “A gente tem que entender o que é farmar aura, tem que querer saber o que são as dancinhas, tem que querer entender o que é o Discord”, afirma a doutoranda em psicologia na Ufrgs, que integra o Núcleo de Pesquisa e Intervenção em Famílias com Bebês e Crianças (Nufabe). Mais do que exercer o mero controle, a aproximação e o cuidado envolvem mediação, conversação e, especialmente, interesse real pela rotina deles: “Se a gente não deixa uma criança ou um adolescente numa praça às duas horas da madrugada sozinho, não dá para deixar na internet sozinho também, sem ter uma supervisão, sem ter uma mediação, sem conversar sobre o que a pessoa está vendo.”

Na prática, porém, essa apropriação ainda está longe de ser uma realidade para todos. Em uma conversa com famílias, a orientadora educacional do Colégio Marista Rosário Sabrina Garbelotto perguntou se alguém conhecia alguma das plataformas usadas pelas crianças, ou o que elas faziam nesses ambientes e com quem interagiam. Poucas pessoas souberam responder. “Essa ignorância, no sentido de ignorar o assunto, coloca crianças e adolescentes muito em risco”, afirma.

O coordenador do Núcleo de Prevenção à Violência Extrema (Nupve) Fábio Costa Pereira chama a atenção para esse distanciamento ao falar em um “gap geracional”: “Os pais precisam ser vigilantes analógicos: olhar o que consomem, com quem conversam e o que fazem no virtual, assim como nossos pais faziam no mundo real.” Criado no âmbito do Ministério Público do Rio Grande do Sul, o Nupve também integra essa rede de proteção, ao lado de outros agentes responsáveis por identificar riscos e atuar na garantia dos direitos de crianças e adolescentes.

A ideia de uma proteção construída em conjunto também está presente no Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente, que articula diferentes instituições e agentes em torno da prevenção de violações e da efetivação desses direitos. Com o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), essa lógica passa a alcançar de forma mais explícita o ambiente virtual, estabelecendo deveres para os diferentes atores envolvidos na experiência online. “A gente tem aqui uma corresponsabilidade em relação aos mais novos com funções distintas; não é uma transferência”, esclarece Leonardo Braga Moura, advogado especialista em Direito Digital.

Mesmo com a proibição do uso de celulares no ambiente escolar, especialistas destacam que a escola segue tendo responsabilidade na segurança dos estudantes na internet. O professor Thiago Gruner, do Colégio Anchieta, resume essa tarefa na necessidade de ensinar uma cidadania “do celular para dentro”. Como retoma a coordenadora pedagógica Caroline Garziera, do Colégio Farroupilha, “a escola e a família precisam andar de mãos dadas, pois não se educa um estudante sozinho.”

Fonte: Correio do Povo