Amamentação avança no Brasil, mas segue abaixo da meta mundial
17 de agosto de 2026
Mais de 37,5% dos recém nascidos no Brasil não foram amamentados na primeira hora de vida, de acordo com os últimos dados do Estudo Nacional de Almimentação e Nutrição Infantil (Enani), que coletou dados em diferentes regiões do país entre 2019 e 2020. Ainda conforme o levantamento, apenas 45,8% dos bebês são alimentados exclusivamente com leite materno até os seis meses de idade, enquanto a atual meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 50% e deverá ser atualizada para 70% até 2030.
Obstáculos para a meta
Os dados traduzem em números o que é uma realidade para muitas famílias: diversas circunstâncias dificultam o aleitamento da forma adequada e contínua. Muitas lactantes enfrentam limitações fisiológicas para a amamentação. Em vários casos, fissuras e inflamações no peito, ou até o empedramento do leite podem ocorrer após longos períodos sem amamentação ou ordenha. Além disso, as crianças podem apresentar dificuldade de pegar o peito.
A nutricionista responsável pelo Banco de Leite Humano do Hospital Fêmina, Angela Beatriz Arnt, defende que o período de amamentação exige cuidados para garantir a nutrição da criança e a saúde da mãe. “É orientado não fumar, não usar drogas de abuso, não consumir álcool e não usar alguns medicamentos específicos. Os hábitos saudáveis, como boa alimentação, hidratação e tranquilidade, garantem que a mãe esteja bem para este momento tão especial e desafiador que é a lactação”, orienta.
Esses hábitos podem melhorar as condições para a amamentação, além de evitar que a família precise recorrer a alternativas para a alimentação do bebê, caso o leite não esteja adequado, exista dor ao amamentar ou dificuldades da criança na mamada.
Nos casos em que recém nascidos precisam passar por internação hospitalar, os desafios aumentam significativamente. Além da separação da mãe, fatores psicológicos também podem influenciar na condição da amamentação. “A interrupção do contato pele a pele contínuo, a dificuldade ao estímulo e frequência das mamadas, o cansaço físico e emocional junto a insegurança acabam interferindo principalmente no aleitamento materno”, explica a nutricionista do Hospital Humaniza, Daniela Cornelius.
A frequência intensa e constante de amamentação também pode evitar o empedramento do leite no peito, conforme explica a presidente do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Rossiclei Pinheiro. “A amamentação deve ser em livre demanda, sempre que o bebê quiser, a hora que ele quiser, quando ele quiser. Essa é a melhor forma de regular a produção de leite”, aconselha a representante, que defende o uso do próprio leite para cicatrização, em caso de fissuras.
Além das limitações físicas, muitas mulheres relatam a dificuldade de prosseguir amamentando seus filhos após o retorno à rotina de trabalho, com o fim da licença maternidade. Conciliar a frequente amamentação em livre demanda com as atividades laborais é um desafio cada vez mais comum das famílias brasileiras, já que quase 52% delas são sustentadas por mulheres, conforme levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV).
A recomendação do Ministério da Saúde, é que as crianças sejam amamentadas até os dois anos de idade, em uma dieta com outros alimentos e exclusivamente pelo aleitamento materno até os seis meses de vida. Não há evidências que indiquem prejuízos para a amamentação após os dois anos da criança e a prática está relacionada a benefícios para a saúde da mãe, incluindo a prevenção de diabetes, hipertensão arterial e cânceres de mama e ovário.
Benefícios
De forma ideal, não existe nenhum outro alimento que substitua plenamente os nutrientes encontrados no leite materno humano, de acordo com o que defende a representante da SBP. “O leite materno possui uma composição complexa com células vivas, que não podem ser replicadas ou copiadas sinteticamente. O leite materno é o único alimento específico para a raça humana, insubstituível e inigualável”, apesar de ponderar que, em alguns casos, a criança pode ser alimentada com fórmula infantil.
A especialista ainda destaca que a prática traz benefícios para a saúde da mãe, evitando inflamações e auxiliando na recuperação após o parto e no desenvolvimento físico, psicológico e mental da criança, podendo influenciar inclusive no QI (Quociente de Inteligência) do indivíduo, quando mantida como única fonte de alimentação até os seis meses de idade. “A longo prazo, a amamentação está associada com menores riscos de obesidade, diabetes tipo 1 e tipo 2, contribui positivamente para o desenvolvimento cognitivo e também ajuda no desenvolvimento emocional”, explica.
As especialistas também destacam que a prática é incentivada mesmo em situações em que é necessária a separação entre a lactante e o recém-nascido, já que a amamentação “fortalece o vínculo afetivo e a relação de apego entre mãe e bebê”, salienta Rossiclei. “O aleitamento materno reduz a necessidade de tratamentos médicos e medicamentos, economizando recursos, tanto para a família como para o sistema de saúde”, complementa a pediatra.
Responsabilidade compartilhada
Por essas propriedades específicas, garantir que todos os recém nascidos tenham acesso a esse alimento é um direito previsto em lei desde 2022. A legislação obriga estabelecimentos com pelo menos 30 funcionárias com mais de 16 anos a fornecer um local adequado para vigilância e assistência de seus filhos durante o período de amamentação.
O entendimento legal, reforça que garantir as condições para o aleitamento de forma adequada, é uma questão de saúde pública e, por isso, deve contar com a colaboração integral da sociedade. “Estes apoios beneficiam não apenas a mãe e o bebê, mas também a sociedade como um todo, visto que, a amamentação está associada a inúmeros benefícios para ambos, principalmente atuando na melhor recuperação dos recém-nascidos e a redução de doenças infantis ao longo da infância e também na vida adulta”, salienta a nutricionista clínica do Hospital Humaniza, Daniela da Silva Cornelius.
Tendo em vista a importância do leite materno para a nutrição e desenvolvimento infantis, diversos hospitais disponibilizam bancos de leite, que beneficiam pacientes das Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) neonatais. Mães que estejam saudáveis, sem fazer uso de substâncias, que estejam amamentando exclusivamente seus bebês e que tenham excesso de leite, podem doar o recurso.
Para doar, os lactantes devem buscar a instituição hospitalar beneficiária e registrar o interesse. No caso do Banco de Leite Humano do Hospital Fêmina, é disponibilizado um formulário para cadastro que pode ser acessado pela página da entidade no Instagram. Equipes do hospital fazem a coleta uma vez por semana na casa das doadoras e se responsabilizam pelo transporte, testagem e armazenamento do recurso por até seis meses, até o consumo. Todo o processo é feito com privacidade e com rastreamento ativo.
Fonte: Correio do Povo