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Pesquisadores descobrem duas espécies novas de lagostins no RS

Estado

30 de julho de 2026

Pesquisadores descobrem duas espécies novas de lagostins no RS
Parastacus paulae, uma das espécies encontradas pela pesquisa
Foto : Felipe Bezerra / Divulgação

No dia 28 de janeiro deste ano, Felipe Bezerra Ribeiro desembarcou no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, trazendo na mala exemplares de duas espécies novas de lagostins de água doce para o Rio Grande do Sul: o Parastacus paulae e o Parastacus mingusi.

Desde 2013 Felipe trabalha com lagostins de água doce, o que o torna especialista nesse animal. A identificação das novas espécies foi resultado de uma análise minuciosa e comparativa com todos os registros já descritos na literatura científica.

“O reconhecimento de uma espécie inédita exige a comparação detalhada dos chamados caracteres morfológicos, isto é, as características físicas que diferenciam um organismo dos demais já conhecidos”, explica ele.

A expectativa é de que novos achados ampliem ainda mais o conhecimento sobre a diversidade desses crustáceos no Sul do Brasil. As novas espécies apresentam traços distintivos especialmente na morfologia das pinças, estrutura considerada fundamental na taxonomia desses crustáceos. Além disso, a localização geográfica foi um fator decisivo. Até então, não havia qualquer registro de lagostins naquela região específica da Serra Gaúcha (Igrejinha e Bom Princípio).

Para o pesquisador, a relevância das descobertas vai além da ampliação do catálogo biológico. Os lagostins desempenham papel ecológico essencial nos ecossistemas de água doce, porém, muitos desses ambientes, especialmente no Rio Grande do Sul, estão enfrentando pressão da expansão urbana, de atividades econômicas e dos impactos associados à crise climática.

“A identificação de espécies novas, especialmente quando são endêmicas (ocorrem exclusivamente em uma área específica), pode se tornar argumento decisivo para a criação de medidas de proteção ambiental. Quando se comprova que uma espécie só existe naquela região, a importância da área se torna ainda maior”

Segundo o pesquisador, os lagostins são animais de grande importância ecológica, sendo relevantes na ciclagem de nutrientes e oxigenação do solo em ambientes úmidos, locais em que se desenvolvem florestas, principalmente próximas a fontes de água, como arroios, rios e lagos. Dessa forma, esses animais ajudam na preservação desses tipos de ambientes e dos corpos d’água.

A partir desses achados, os pesquisadores apontam que há uma diversidade ainda subestimada desse grupo de animais, demonstrando a necessidade de continuidade de pesquisa para o conhecimento e a descrição de novas espécies e a avaliação de seu risco de extinção, a fim de que sejam desenvolvidas ações de conservação das espécies e dos ambientes úmidos associados.

“Os próximos passos e o desdobramento da pesquisa estão relacionados à descrição de novas espécies de outras regiões do Rio Grande do Sul e também de Santa Catarina, os únicos estados que abrigam espécies nativas de lagostins no Brasil”, frisa Felipe.

O lagostim Parastacus paulae foi batizado em homenagem à professora do Departamento de Zoologia da UFRGS Paula Beatriz de Araujo, orientadora de Felipe no doutorado em Biologia Animal.

“Muitas dessas espécies vivem em ambientes específicos, como margens de arroios, áreas de extravasamento e solos argilosos em que escavam galerias. Mudanças no regime hídrico, secas prolongadas e aumento de temperatura podem reduzir drasticamente as populações”

Segundo Paula, o desafio é ainda maior porque muitas espécies ocupam áreas muito pequenas. “Um empreendimento mal planejado pode afetar populações inteiras.”

Para a pesquisadora, a base de todo esse trabalho de descoberta de novas espécies está na taxonomia (ciência que descreve e nomeia as espécies). “Se alguém fizer um estudo ecológico com um lagostim que não tem nome, é um estudo de alguém que não tem nome. Alguém que não tem nome não é ninguém. Quando a gente descreve e dá nome, essa espécie passa a existir no mundo científico”, afirma. A partir disso, outras áreas podem avançar: genética de populações, ecologia, biogeografia e conservação. Nomear é, então, o primeiro passo para proteger.

As descobertas foram publicadas em dezembro passado em artigo na revista internacional Zoological Studies, envolvendo o Programa de Pós-graduação em Biologia Animal (PPGBAN) da UFRGS e o Laboratório de Biologia Integrativa de Crustáceos da USP, coordenado por Felipe. O holótipo (único exemplar designado pelo autor como referência principal da nova espécie no momento da descrição) ficou na USP, e os parátipos (outros exemplares citados na descrição original que ajudam a representar a variação da espécie, mas não são o holótipo) foram entregues por Felipe aos cuidados da professora da UFRGS Mariana Terossi e, agora, compõem a Coleção de Crustáceos do Departamento de Zoologia da Universidade.

Fonte: Correio do Povo