Diagnóstico tardio pode elevar sequelas em câncer de cabeça e pescoço
20 de julho de 2026
Rouquidão persistente, manchas brancas ou vermelhas na boca, dificuldade ou dor para engolir, caroço no pescoço, feridas na boca que não cicatrizam e dores persistentes nas regiões da boca ou garganta são condições de saúde que devem ser investigadas. Em alguns casos, esses podem ser sinais de câncer de pescoço e cabeça.
A campanha Julho Verde traz luz sobre essas condições que, se identificada precocemente, pode evitar sequelas, simplificar o tratamento e aumentar a taxa de cura mantendo a qualidade de vida do paciente. A doença atinge regiões como a boca, língua, garganta, laringe, faringe, cavidade nasal, glândulas salivares e tireoide. Pela complexidade dos tecidos, o tratamento do paciente oncológico é acompanhado por uma equipe multidisciplinar.
O paciente que suspeitar da formação de tumores nessas regiões pode procurar profissionais da atenção básica em saúde, que deverá encaminhar o paciente a especialistas que podem ser fonoaudiólogos, dentistas, otorrinolaringologistas e cirurgiões de cabeça e pescoço. Esses profissionais são os especialistas mais habituados a avaliar os sinais e, em alguns casos, podem acompanhar todo o processo de diagnóstico, tratamento e recuperação.
Para a fonoaudióloga do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Émille Dalben Paim, ignorar os sintomas pode prejudicar a recuperação em caso positivo para um tumor maligno. “O mais importante é não esperar indefinidamente que os sintomas desapareçam sozinhos. Quando a doença é descoberta precocemente, o tratamento costuma ser mais eficaz e a recuperação tende a ser melhor”, destaca a especialista.
Fatores de risco
De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), a previsão era que somente em 2024 fossem diagnosticados 15,1 mil novos casos de câncer da cavidade oral no Brasil. O câncer de boca é o 7º mais comum no país e o 5º mais incidente entre homens. Dados do instituto revelam que apesar do alto potencial de cura, a maior parte dos pacientes brasileiros recebe o diagnóstico e inicia o tratamento em estágios avançados da doença.
Entre os principais fatores de risco para o desenvolvimento da doença está o tabagismo e o consumo de álcool, principalmente se ambos estiverem associados “Quando esses dois hábitos eles estão associados, o risco para desenvolver um câncer de cabeça e pescoço aumenta significativamente porque os dois se atraem”, destaca a professora de medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Luciane Steffen.
Além disso, o surgimento da doença pode estar relacionado à infecção pelo vírus HPV, exposição solar, higiene bucal precária, má alimentação e sedentarismo, como destaca o otorrinolaringologista e cirurgião de cabeça e pescoço do HCPA, Konrado Massing Deutsch. “É importante cuidar da saúde da boca, consultar o dentista regularmente e manter a vacinação contra o HPV em dia, conforme o calendário recomendado. A segunda etapa é procurar avaliação quando surgir alguma alteração persistente. Sintomas passageiros são comuns, mas, quando persistem por mais de duas semanas, devem ser investigados. ”, afirma o médico. Todos esses fatores podem estar associados a uma pré-disposição genética à doença, por isso, os especialistas destacam a importância de buscar o histórico familiar do paciente.
Diagnóstico
Sempre que os sintomas citados no início desta reportagem forem identificados por tempo prolongado, os especialistas recomendam que o paciente busque avaliação médica. Mesmo que o diagnóstico seja complexo e exija a apreciação de um especialista, o primeiro contato pode ser feito com um clínico-geral para que, se necessário, faça o encaminhamento para um especialista.
“O clínico-geral, que lida com privação de equipamentos, por exemplo, consegue avaliar a boca desse paciente, apalpar o pescoço e observar alguns sinais que são importantes para que ele encaminhar esse paciente para um dentista capacitado, ou um otorrino, uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) ou hospital de referência”, destaca a professora. Uma vez confirmada a suspeita clínica da doença, o profissional pode prescrever exames complementares com especialistas e solicitar uma biópsia que confirme ou não a formação de tumor.
“As vezes a maior dificuldade é a localização de um profissional especialista em cirurgia de cabeça e pescoço, que é o profissional apto a tratar esse tipo de tumoração. Em regiões mais afastadas, de menor densidade demográfica, não possui esse profissional e o paciente precisa buscar esse atendimento nos grandes centros. São poucos serviços no Estado com cirurgiões de cabeça e pescoço”, alerta o cirurgião do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), Marcelo Emir Requia Abreu.
Sequelas
A região afetada por essas formações tumorais pode comprometer importantes funções básicas de socialização, conforme salienta a fonoaudióloga Émille Dalben Paim, “Muitos pacientes podem apresentar dificuldades para comer, engolir, falar e, em alguns casos, até para respirar. Essas alterações podem afetar a alimentação, a comunicação, a convivência com a família e a qualidade de vida” explica a especialista que destaca o diagnóstico precoce como determinante para a recuperação dessas funções.
“Alterações na voz, dificuldades para engolir, perda do paladar, boca seca, uma dor persistente, e outros fatores relacionados acabam comprometendo muito a qualidade de vida desses pacientes. Pode ter perda de peso, alterações dentárias, o que pode alterar aparência física”, adiciona a pesquisadora da PUCRS, Luciane Steffen.
Tratamento
O tratamento da doença pode variar de acordo com diversos fatores, incluindo a região do tumor, a rapidez do diagnóstico, o estágio da doença e a condição clínica do paciente. Entre as opções estão cirurgia, radioterapia e quimioterapia, ou até, a combinação das três estratégias. “A cirurgia tem uma taxa de cura muito maior do que só a radioterapia ou quimioterapia. Em alguns casos ainda há a imunoterapia, para estágios muito avançados da doença ou de recidivas frequentes, também pode ser usado”, explica a pesquisadora destacando o caráter individualizado do tratamento, que pode variar dependendo do caso.
A melhor estratégia de enfrentamento à doença, é decidida entre o paciente e uma equipe multidisciplinar que pode incluir o cirurgiões especialistas em cabeça e pescoço, otorrinolaringologistas, oncologistas, radioterapeutas, psicólogos, fonoaudiólogos e dentistas.
Os especialistas salientam que, mesmo que a aparição dos sinais não signifique necessariamente a ocorrência de câncer, é importante que o paciente busque atendimento médico e investigue em casos de persistência dos sintomas e não recorra à automedicação. Em caso positivo para identificação de tumores, o diagnóstico precoce pode ser determinante para a taxa de cura da doença e, principalmente, para a plena recuperação dos pacientes.
Fonte: Correio do Povo