O Brasil já recebeu neste ano mais que o dobro de investimentos estrangeiros registrados em 2025
20 de abril de 2026
Recursos estrangeiros são historicamente um dos principais motores da Bolsa brasileira, e em 2026 estão ganhando peso ainda maior na B3. Investidores de fora do País, como grandes fundos internacionais e bancos estrangeiros, já respondem por 61,5% das negociações no mercado, segundo levantamento da Quantum Finance. O número é 5,4 pontos percentuais maior do que o registrado em 2025 e representa o maior nível de presença internacional já observado.
A força desse movimento aparece no fluxo de recursos, termo usado no mercado para indicar quanto dinheiro entra ou sai da Bolsa. Apenas em janeiro, os aportes líquidos de estrangeiros, isto é, o valor investido descontadas as retiradas, somaram R$ 26,3 bilhões, superando todo o saldo positivo de 2025, quando as entradas chegaram a R$ 25,47 bilhões.
Dados divulgados pela B3, com dois dias de atraso em relação às operações realizadas, mostram que, até 15 de abril, o ingresso acumulado de capital estrangeiro no mercado brasileiro já ultrapassava R$ 68 bilhões.
Segundo o economista e diretor nacional do Ibmec, Reginaldo Nogueira, a B3 historicamente depende desse capital internacional.
“Quando vemos a Bolsa subir, muitas vezes isso está diretamente ligado à entrada de dinheiro de investidores estrangeiros”, afirma. “Esse peso do investidor externo chega a dificultar a identificação de efeitos econômicos em setores específicos. Em grande medida, são eles que sustentam o mercado.”
Com o início da guerra no Oriente Médio, no fim de fevereiro, analistas esperavam que o aumento da tensão internacional, a disparada do petróleo e o risco de inflação global afastassem investidores da Bolsa brasileira.
“Em momentos de conflito internacional, é comum que investidores retirem dinheiro de mercados considerados mais arriscados, como os de países emergentes”, explica Marcelo Okura, codiretora de mercados globais para a América Latina do UBS BB, destacando que esses mercados costumam reagir com mais volatilidade a crises.
O cenário de fuga de capital, porém, não se concretizou. Durante os 32 pregões realizados no período mais intenso do conflito, apenas oito registraram saída líquida de capital estrangeiro. A maior retirada ocorreu em 20 de março, quando a tensão no Oriente Médio atingiu um de seus picos e o preço do barril de petróleo Brent, referência mundial de preços, superou US$ 110.
Naquele dia, o saldo negativo foi de R$ 1,5 bilhão, rapidamente compensado pela entrada de R$ 2,72 bilhões nos três pregões seguintes.
No acumulado de março e abril, os investidores internacionais aportaram cerca de R$ 26,2 bilhões no mercado brasileiro.
“O fluxo, que era mais forte nos primeiros meses, diminuiu, mas continuou positivo”, diz Okura.
Segundo o economista, a continuidade das entradas no Brasil se explica por diversos fatores, como uma certa estabilidade institucional, sem regras que mudam constantemente e uma alta liquidez, em que os investidores podem retirar e alocar seu dinheiro com facilidade. Além disso, Okura cita o ambiente geopolítico mais instável associado ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
“Desde a implementação do tarifaço no ano anterior, as decisões do governo americano passaram a ser vistas como menos previsíveis, o que aumenta a percepção de risco institucional na maior economia do mundo”, afirma.
Esse cenário se reflete no comportamento do DXY, índice usado no mercado para medir a força do dólar em relação a outras grandes moedas globais, como euro, iene e libra.
Em abril de 2026, o indicador passou a operar abaixo dos 98 pontos, cerca de 6% inferior ao pico registrado em fevereiro de 2025, quando havia atingido 104 pontos, àquela altura ainda impulsionado por certo otimismo com a agenda econômica de Trump.
Na avaliação do sócio e responsável pela mesa de ações e derivativos do BTG Pactual, Jerson Zanlorenzi, parte do capital que deixou os Estados Unidos com o enfraquecimento do dólar acabou encontrando um destino quase natural no Brasil.
“Quando o investidor busca outros mercados, ele olha para o Brasil, que atravessa seu maior ‘inverno’ de renda variável, com um hiato de quatro anos sem novas aberturas de capital (IPOs). Com ativos depreciados e preços atraentes investir aqui torna-se quase uma escolha lógica para o estrangeiro” diz.
Segundo dados do MSCI Emerging Markets Index, referência global para ações de países emergentes, o Brasil negocia hoje cerca de 8,2 vezes o lucro das empresas, indicador conhecido no mercado como P/L (preço sobre lucro), que compara o valor das ações com os ganhos das companhias.
Esse patamar representa um desconto de quase 30% em relação à média histórica do país, de 11,5 vezes, e de 12,2 vezes em relação à média das nações emergentes:
“Quando comparamos com outros emergentes, o Brasil acaba se destacando. A Índia, por exemplo, negocia a cerca de 22,5 vezes o lucro, enquanto o México está mais próximo da média, com 13,8 vezes, mas enfrenta incertezas tarifárias e maior dependência da economia dos EUA. Já a Rússia foi removida dos índices globais e segue sob sanções após invadir a Ucrânia. Nesse cenário, o Brasil acaba levando vantagem”, afirma Zanlorenzi.
Os especialistas também avaliam que o fato de o Brasil ser exportador de petróleo e ter grandes empresas no setor, como a Petrobras, ajuda a atrair investimento para o país – o que se reflete, por exemplo, na valorização de 50,13% das ações da estatal neste ano.
“Diferentemente de muitos emergentes, somos um país produtor de commodities. Produzimos petróleo, temos reservas de urânio, metais raros e uma produção agrícola gigantesca. Num momento em que o mundo enfrenta mais incertezas sobre a globalização e passa a buscar segurança em recursos naturais, o Brasil se torna um mercado que chama atenção”, diz Zanlorenzi.
Para além dos pontos citados, outro fator que, segundo especialistas, vem atraindo fluxo para o Brasil mesmo antes do início do conflito são os juros elevados no país. Desde a última reunião do Copom, em março, a taxa Selic está em 14,75% ao ano, após quase seis meses em 15%.
“É difícil para o investidor estrangeiro ignorar o Brasil quando aparece uma taxa acima de 14% no painel de negociações. Em comparação com os juros americanos, muito mais baixos, o potencial de carry trade é grande”, diz Nogueira, do Ibmec.
Segundo o economista, quando o real se valoriza, o investidor estrangeiro que internalizou recursos no país não ganha apenas com o rendimento das aplicações, mas também com a valorização da moeda.
Zanlorenzi avalia que o Brasil ainda pode iniciar ciclo de corte de juros mesmo em cenário global mais incerto.
“Se a tensão geopolítica arrefecer, o mercado pode começar a projetar cortes de até 3 ou 4 pontos na Selic. A taxa hoje está muito contracionista, e uma redução tende a reprecificar os ativos e estimular a migração de parte dos recursos da renda fixa para a Bolsa”, diz.
Fonte: Redação O Sul