Ultraprocessados avançam na dieta e já representam quase um quarto das calorias consumidas no Brasil
04 de abril de 2026
O consumo de alimentos ultraprocessados mais do que dobrou entre os brasileiros desde a década de 1980, passando de 10% para 23% do total de calorias ingeridas diariamente. O avanço preocupa especialistas e acompanha uma tendência global, apontada em estudos publicados na revista científica The Lancet, conduzidos por mais de 40 pesquisadores liderados por cientistas da Universidade de São Paulo.
O conceito de ultraprocessados foi criado em 2009 pelo pesquisador Carlos Monteiro, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens/USP), diante do aumento de casos de obesidade, sobrepeso e doenças crônicas. A partir disso, foi desenvolvida a classificação NOVA, que divide os alimentos em quatro grupos, desde os in natura até os ultraprocessados, como refrigerantes, bolachas recheadas e bebidas açucaradas.
Segundo Monteiro, a mudança no padrão alimentar não pode ser atribuída apenas a escolhas individuais. Para ele, o sistema alimentar atual estimula o consumo desses produtos. “Não existe uma epidemia de falta de força de vontade. O que mudou foi o sistema alimentar”, afirma.
O tema ganha destaque no programa Caminhos da Reportagem, que exibe o episódio “Ultraprocessados na Mesa dos Brasileiros”, abordando as origens do conceito, formas de identificação desses produtos e os impactos para a saúde e a sociedade.
Um levantamento da Fiocruz Brasília em parceria com o Nupens aponta que o consumo de ultraprocessados gera um custo superior a R$ 10 bilhões por ano ao país. Além disso, estudos indicam que até 57 mil mortes anuais poderiam ser evitadas com a eliminação desses alimentos da dieta.
Apesar dos alertas, a recente reforma tributária, cuja transição começou em 2026, não incluiu a maioria dos ultraprocessados no imposto seletivo — mecanismo criado para desestimular o consumo de produtos nocivos à saúde. Apenas bebidas açucaradas, como refrigerantes, receberam taxação adicional.
A coordenadora-geral de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde, Kelly Santos, explica que o novo modelo prevê impostos reduzidos para alimentos saudáveis e maior tributação para itens considerados prejudiciais. No entanto, ainda será necessária uma lei complementar para definir as alíquotas aplicadas às bebidas açucaradas.
Especialistas também defendem medidas como regulação da publicidade e educação alimentar. Para Paula Johns, a restrição de propaganda, semelhante ao que foi feito com o cigarro, pode ser eficaz. Já Luciana Phebo alerta para os impactos ainda mais graves entre crianças, que estão em fase de desenvolvimento.
Casos reais ilustram essa preocupação. O estudante Luan Bernardo Marques Gama, de 13 anos, desenvolveu pré-diabetes após consumo frequente de ultraprocessados. Com acompanhamento nutricional e mudança de hábitos, conseguiu reverter o quadro em cerca de um ano.
Diante desse cenário, pesquisadores, entidades de saúde e organizações da sociedade civil reforçam a necessidade de políticas públicas mais rigorosas e de incentivo ao consumo de alimentos in natura, como forma de frear o avanço dos ultraprocessados na alimentação dos brasileiros.
Fonte: Agência Brasil