Mel da soja ganha destaque e revela potencial comercial na integração entre lavoura e apicultura
15 de março de 2026
Em 2025, a 4ª Edição do Jornal Ceres AgroNews contou a experiência realizada na Fazenda Renascer, já sinalizando um caminho promissor para a integração entre sojicultura e apicultura. Naquele momento, o projeto ainda estava em fase inicial, com áreas delimitadas para comparar setores com e sem acesso das abelhas, e com a expectativa de que a polinização assistida pudesse aumentar a produtividade da soja. Agora, a atualização desse trabalho trouxe resultados mais concretos, principalmente no que se refere ao mel produzido a partir da florada da soja e à análise polínica feita por especialistas.
O biólogo e pesquisador Jefferson Radaeski, especialista em meliponicultura e palinologia, analisou a produção e a composição do mel produzido na região e confirmou que a relação entre soja e abelhas é, de fato, uma integração com ganhos reais para ambos os lados. Em entrevista ao Grupo Ceres de Comunicação, ele destacou que, além do aumento de produtividade da soja, a produção de mel também apresentou características específicas e com potencial comercial.
Soja e abelhas: uma relação que se mostrou rentável
Radaeski reforçou que, embora a soja seja uma cultura que pode ser produzida sem polinizadores, a presença das abelhas trouxe um ganho de produtividade que variou entre 18% e 20% na área analisada. “Quando a gente tem esses insetos próximos aos cultivos, a gente tem um aumento na produtividade”, afirmou.
O pesquisador explicou que esse resultado foi possível porque a polinização, mesmo em uma cultura autógama como a soja, melhora a formação das vagens e o enchimento das sementes. O ganho, segundo ele, é percebido especialmente quando a integração é feita de forma planejada, com manejo consciente e com respeito ao ciclo de floração.
Além do benefício para a lavoura, o pesquisador destacou que as abelhas também se beneficiaram, já que a soja passou a oferecer alimento abundante durante a florada, permitindo que as colônias produzissem mel com características diferenciadas.
O mel da soja: característica, mercado e diferenciais
Um dos pontos mais relevantes da atualização foi a explicação sobre as particularidades do mel de soja. Radaeski apontou que esse mel tem um alto teor de frutose, o que dificulta o processo de cristalização. Esse é um diferencial importante para o mercado, principalmente o internacional, que busca mel claro e de sabor suave.
“O mel da soja não cristaliza facilmente. Isso ocorre porque o balanço entre glicose e frutose determina a facilidade ou dificuldade de cristalização. O mel da soja tem maior teor de frutose”, explicou.
Essa característica coloca o mel da soja em uma posição estratégica para exportação, sobretudo em mercados que valorizam mel claro e com textura fluida. Além disso, o fato de ser um mel de origem específica reforça a possibilidade de agregação de valor, sobretudo se houver certificação e comprovação de qualidade.
Análise polínica: o que o mel revela sobre a produção
A análise palinológica realizada por Radaeski foi determinante para entender a composição do mel e comprovar a influência da florada da soja na produção apícola. Segundo o pesquisador, o estudo do pólen presente no mel permite identificar quais plantas foram visitadas pelas abelhas durante a coleta do néctar.
Ele explicou que, ao visitar as flores, as abelhas acabam se “sujando” com o pólen, que cai no mel. Com isso, é possível, por meio de microscopia, identificar a diversidade de grãos de pólen e concluir quais plantas foram predominantes na produção daquele mel.
“Quando a gente coloca o pólen em microscopia, a gente consegue observar uma diversidade de formas. Alguns grãos são arredondados, outros triangulares, alguns têm espinhos, outros são mais lisos. Isso permite identificar as plantas que as abelhas visitaram mais ou menos”, disse o pesquisador.
Com base nisso, a análise da amostra produzida na Fazenda Renascer indicou a presença do pólen da soja, confirmando que a florada foi, de fato, um dos principais recursos utilizados pelas abelhas durante a coleta.
Manejo e cuidados: como garantir uma integração saudável
Outro ponto destacado por Radaeski foi a necessidade de manejo adequado, principalmente no que diz respeito à aplicação de defensivos agrícolas durante o período de floração. Ele reforçou que, para que a parceria entre soja e abelhas seja positiva, é fundamental que o produtor tenha cuidado e respeite intervalos entre as aplicações.
“Quando tiver no ápice da floração, é preciso ter cuidado com a aplicação de defensivos, porque esses insetos estarão presentes nas flores e podem ser acometidos”, alertou. “Mas fazendo um manejo adequado e respeitando o período, tanto o setor da soja quanto o setor da apicultura podem desenvolver-se de forma conjunta, com ganho mútuo.”
Essa orientação reforça a necessidade de diálogo entre sojicultores e apicultores, algo que já havia sido apontado no ano anterior como essencial para o sucesso da integração.