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Roberto Rodrigues destaca protagonismo do agro brasileiro na COP30

Ceres Agronews

14 de março de 2026

Roberto Rodrigues destaca protagonismo do agro brasileiro na COP30
Para o ex-ministro, Brasil ganhou respeito e liderança no debate climático internacional
Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Roberto Rodrigues atuou como Enviado Especial para Agricultura na COP30, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, realizada em Belém (PA), entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025. Professor da USP e ex-ministro da Agricultura, ele liderou a articulação do setor produtivo brasileiro, apresentou o conceito do “Agro Tropical” sustentável, defendeu a regularização fundiária e trabalhou para mostrar à comunidade internacional a eficiência e a sustentabilidade do agronegócio brasileiro como parte da solução para a segurança alimentar e a transição energética. Pela primeira vez, a agricultura ocupou um espaço central no debate climático global.

Grupo Ceres: O senhor teve uma participação decisiva na COP30 como representante do agronegócio brasileiro. Que avaliação inicial o senhor faz desse evento?

Rodrigues: A principal importância dessa COP foi o fato de, pela primeira vez, a agricultura ter ocupado um papel relevante. Nas 29 edições anteriores, a agricultura era pouco considerada. Falava-se em alimentos e segurança alimentar, mas como se fosse possível garanti-la sem agricultura. O tema simplesmente não tinha centralidade.
Desta vez foi diferente. Pela primeira vez, a agricultura esteve em um patamar que nunca teve antes, especialmente a agricultura tropical, praticada no Brasil. Isso foi visto de forma extremamente positiva por todos os participantes.

Um dos pontos centrais foi a iniciativa da Embrapa que, com apoio da CNA, da OCB, de empresas e de outras instituições, montou em sua sede, em Belém do Pará, a exposição AgriZone. Ali foram apresentados estandes com tecnologias e avanços do setor e, durante os 11 dias da COP, ocorreram 372 eventos no espaço.
Além disso, no campo, a Embrapa instalou áreas demonstrativas com culturas voltadas à redução de carbono, como soja, milho, trigo e sorgo carbono neutro, além de sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta. Foi uma demonstração científica e tecnológica que impressionou os estrangeiros.
Ninguém imaginava que o Brasil tivesse uma produção rural tão competente e sustentável. Isso ficou muito claro e elevou a agricultura brasileira a um novo patamar internacional.

Grupo Ceres: E como se deu a sua participação pessoal na COP30?

Rodrigues: Meu papel foi apresentar um documento que não refletisse uma opinião pessoal, mas sim a visão institucional do agronegócio brasileiro. Para isso, procurei o Instituto Pensar Agropecuária (IPA) e a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e pedi que elaborassem contribuições que me dessem base para defender o setor durante a COP.
Recebemos 42 documentos de diferentes segmentos — soja, carne, açúcar, entre outros — todos muito distintos entre si. Foi necessário harmonizar esse material. Esse trabalho foi conduzido por uma equipe liderada pela cientista gaúcha doutora Adriana Brondani, que trabalhou durante seis meses na construção de um documento dividido em duas partes.

A primeira parte conta a história do agro brasileiro nos últimos 50 anos. Mostra que, há meio século, o Brasil importava cerca de 30% dos alimentos que consumia e, hoje, exporta para mais de 200 países. Essa trajetória é sustentada por um eixo central: a tecnologia, que resulta em competitividade com sustentabilidade.
O documento apresenta números expressivos sobre produção, produtividade, área cultivada, áreas preservadas, geração de empregos, PIB, faturamento e exportações, evidenciando o desenvolvimento extraordinário do agro brasileiro, fruto da ciência, da tecnologia, do empreendedorismo dos produtores — com destaque para os gaúchos — e de políticas públicas ao longo do tempo.

A segunda parte do documento buscou atender a uma demanda do presidente da COP, André Corrêa do Lago, propondo caminhos para que o modelo brasileiro possa ser replicado no mundo tropical, especialmente na América Latina, África e parte da Ásia. O objetivo é transformar países tropicais pobres em países produtivos, gerando emprego, renda e riqueza.
Esse trabalho se apoia em quatro pilares: segurança alimentar planetária, transição energética justa para fontes renováveis, redução da desigualdade social global e cuidado com o clima, sempre com base em ciência e tecnologia.

O documento final, com 155 páginas, em português e inglês, foi aprovado por unanimidade pelo IPA e pela FPA e distribuído durante a COP. Ele deu ao Brasil uma consistência internacional inédita. Foi uma COP muito melhor do que esperávamos e acredito que o Brasil terá uma contribuição cada vez maior para o mundo em temas essenciais como alimento, energia, emprego, renda e clima saudável.

Grupo Ceres: Na sua avaliação, esse resultado foi suficiente para enfrentar a visão crítica que parte da comunidade internacional tem em relação ao agronegócio brasileiro?

Rodrigues: Não diria que foi suficiente, mas foi um passo inaugural muito importante. O Brasil mostrou o que é capaz de fazer e deixou claro que seu modelo é replicável no mundo tropical. Isso gerou respeito e admiração, além de uma mudança significativa na forma como o país passou a ser observado.
Tanto é verdade que a COP31, que será realizada na Turquia no próximo ano, já busca apoio da Embrapa e de instituições brasileiras para entender como desenvolver uma agricultura eficiente naquele país. A agricultura tropical ganhou dimensão internacional, e o Brasil tem uma grande chance de liderar esse processo.

Grupo Ceres: O que é mito e o que é verdade nessa discussão internacional sobre o agro brasileiro?

Rodrigues: O que muitas vezes se chama de mito é, na verdade, um argumento. Especialmente a Europa utiliza o tema ambiental — que é legítimo e importantíssimo — como instrumento de protecionismo. Usa-se um argumento válido para uma ação inválida.
Ficou claro que o Brasil tem uma agricultura sustentável de norte a sul, com tecnologia diretamente ligada à preservação ambiental. Ao mesmo tempo, nunca negamos que existem crimes ambientais praticados por bandidos, como desmatamento ilegal, invasão de terras e queimadas. O problema é que os concorrentes misturam esses crimes com a agricultura legal e colocam tudo no mesmo saco.

O agricultor brasileiro que produz com tecnologia e sustentabilidade é correto, competitivo e responsável. Bandido é outra coisa, e cabe ao Estado brasileiro combater o crime para que não se confunda o positivo com o negativo.

Grupo Ceres: O agro brasileiro tem margem para cobrar créditos de carbono?

Rodrigues: Esse é um caminho irreversível. Será necessário cobrar, mas com instrumentos legais, tanto internacionais quanto internos. O próprio Código Florestal brasileiro, que é rigoroso, prevê o pagamento por serviços ambientais, algo que ainda precisa ser plenamente regulamentado.
É fundamental criar mecanismos que valorizem a floresta em pé, remunerando o produtor rural pela preservação, e não fazendo com que ele tenha que pagar para proteger.

Grupo Ceres: O que produtores, técnicos, universidades, instituições de pesquisa, entidades representativas e o poder público podem fazer para comunicar o trabalho sério desenvolvido no campo brasileiro?

Rodrigues: Não se trata de propaganda no sentido estrito, mas de comunicação. Comunicação da verdade. É mostrar o que se faz do Acre ao Atlântico com competência, ciência, tecnologia e sustentabilidade.
Foi exatamente isso que fizemos na COP. Mostramos lavouras conduzidas para o carbono neutro, com manejo adequado e tecnologia de ponta. Ao mesmo tempo, é preciso combater o ilegal. Não adianta fazer tudo certo se imagens de crimes ambientais continuam sendo usadas para atacar o setor.
Mostrar a verdade também implica separar o produtor rural do criminoso. O produtor rural brasileiro é um herói, que enfrenta desafios internos e externos há décadas e segue produzindo com eficiência.

Grupo Ceres: O senhor citou a importância histórica do Rio Grande do Sul no agro brasileiro. Como avalia a atual situação de endividamento dos produtores e os impactos climáticos no estado?

Rodrigues: Minha admiração pelo Rio Grande do Sul é imensa. O estado teve papel fundamental na criação da Embrapa, na tropicalização da agricultura e na ocupação do Centro-Oeste. A atuação dos produtores gaúchos foi uma das maiores epopeias do século XX no Brasil, mas infelizmente nunca foi devidamente reconhecida.
Hoje, o estado enfrenta problemas graves, agravados por eventos climáticos extremos, como secas e enchentes. Falta uma política consistente de crédito e, principalmente, de seguro rural. O seguro é a base de tudo. Sem ele, o crédito fica caro e escasso.

O seguro rural eleva o nível tecnológico da agricultura, porque nenhuma seguradora cobre produção sem tecnologia. Além disso, com seguro, os bancos privados passam a conceder crédito com mais facilidade. Esse é o caminho para o Rio Grande do Sul e para o Brasil inteiro.

Grupo Ceres: O senhor está concedendo esta entrevista diretamente do campo. Essa vivência ainda faz parte da sua rotina?

Rodrigues: Hoje a propriedade é dos meus filhos. Eu sou apenas conselheiro. Uma vez por mês venho à fazenda para ajudá-los com aquilo que é mais doloroso na vida: a experiência.
Experiência é a soma das cicatrizes e dos fracassos. Eu venho compartilhar essas dores para que eles não precisem vivê-las novamente.

Grupo Ceres: Agradecemos a disponibilidade em atender o Grupo Ceres de Comunicação.

Rodrigues: Eu que agradeço a oportunidade.