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Entre o crédito e a resiliência do campo, o agronegócio gaúcho busca fôlego para atravessar 2026

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14 de março de 2026

Entre o crédito e a resiliência do campo, o agronegócio gaúcho busca fôlego para atravessar 2026
Endividamento, juros elevados, restrições ao seguro rural e o peso do ano eleitoral colocam o setor diante de decisões que podem redefinir o futuro do campo
Foto: Divulgação

O agronegócio do Rio Grande do Sul chega a 2026 carregando marcas profundas deixadas por um ciclo climático adverso e por um ambiente econômico que, longe de oferecer estabilidade, impõe cautela, planejamento e resistência. Secas severas, enchentes e um endividamento crescente redesenharam o cotidiano do produtor rural nos últimos cinco anos. Agora, diante de um ano eleitoral e de um cenário macroeconômico ainda instável, o setor tenta encontrar pontos de apoio para manter a produção e projetar uma retomada sustentável.

Entidades representativas do campo, como a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) e a Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag), convergem em um diagnóstico central: o problema do agro não é produtivo, mas estrutural. A capacidade técnica, a adoção de tecnologia e a produtividade seguem elevadas. O gargalo está no custo financeiro, na falta de políticas eficazes de mitigação de risco e na dificuldade de acesso a crédito compatível com a realidade do campo.

Endividamento e falta de políticas efetivas

O presidente da Fetag-RS, Carlos Joel da Silva, avalia que a agricultura familiar permanece em situação crítica, sobretudo pelo acúmulo de dívidas. Segundo ele, os sucessivos problemas climáticos, aliados à falta de políticas públicas efetivas, comprometeram a capacidade de investimento dos produtores.

“Foram praticamente cinco anos de problemas climáticos, e a situação do produtor vem se agravando a cada ano. Trabalhamos muito a questão do endividamento, mas até agora não conseguimos resolver. O governo ainda não entendeu a dificuldade do Rio Grande do Sul”, afirmou o presidente.

Joel relata que a falta de recursos tem impactado diretamente o nível tecnológico das lavouras e, em alguns casos, inviabilizando o plantio. “Tem produtor que não plantou este ano e outros que plantaram com tecnologia abaixo do ideal porque não conseguem financiamento. As ações do governo foram importantes, mas insuficientes. Não atenderam todos os produtores, e isso agravou ainda mais o endividamento”, destacou.

Apesar das dificuldades, o dirigente reconhece que o início de 2026 trouxe sinais positivos no campo. Houve boa colheita de arroz e trigo, além de desempenho satisfatório na produção de leite. Ainda assim, os preços pagos ao produtor não acompanharam os custos. “Nós temos produção, mas não temos preço. Isso eleva ainda mais o endividamento, que hoje é crucial para nós”, afirmou.

Preços, custos e o impasse do alimento barato

Outro ponto de preocupação levantado pela Fetag-RS está relacionado ao discurso de controle dos preços dos alimentos. Para Joel, a busca por comida barata não pode recair exclusivamente sobre o produtor. “A comida barata não pode ser às custas do agricultor. Ela precisa vir de ações governamentais de redução de custos. Hoje energia elétrica, diesel, insumos e juros estão todos altos”, pontuou.

Seguro rural como base do sistema de crédito

O corte de recursos destinados ao seguro rural também é apontado como um dos fatores mais graves do momento. “Falta dinheiro para o seguro rural. O governo cortou recursos, e muitos produtores estão pagando a parte que seria do governo. O agricultor assume todos os riscos, mas só é lembrado na hora de arrecadar”, criticou.

A avaliação sobre a centralidade do seguro rural é compartilhada por lideranças históricas do setor. O produtor e ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, destaca que o Rio Grande do Sul carrega papel determinante na construção do agro brasileiro e, ao mesmo tempo, enfrenta hoje um dos momentos mais delicados da sua trajetória recente.

Questionado pelo Ceres AgroNews sobre o endividamento e os impactos climáticos no estado, Rodrigues afirmou que sua admiração pelo Rio Grande do Sul é imensa e lembrou que o estado teve papel fundamental na criação da Embrapa, na tropicalização da agricultura e na ocupação do Centro-Oeste. Segundo ele, a atuação dos produtores gaúchos foi uma das maiores epopeias do século XX no Brasil, mas nunca devidamente reconhecida.

Para Rodrigues, os eventos climáticos extremos, como secas e enchentes, agravaram um problema que já era estrutural. Ele defende que falta uma política consistente de crédito e, sobretudo, de seguro rural. “O seguro é a base de tudo. Sem ele, o crédito fica caro e escasso. O seguro rural eleva o nível tecnológico da agricultura, porque nenhuma seguradora cobre produção sem tecnologia. Além disso, com seguro, os bancos privados passam a conceder crédito com mais facilidade. Esse é o caminho para o Rio Grande do Sul e para o Brasil inteiro”, afirmou.

Acordos internacionais e competitividade

A crítica se estende aos acordos internacionais. Joel avalia que o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia carece de mecanismos de proteção ao produtor brasileiro. “Nós não temos medo de competir com produtores de outros países, desde que tenhamos as mesmas condições. Hoje nossos custos são muito maiores, e não há nenhuma cota ou proteção para cadeias sensíveis como leite, arroz e trigo”, alertou.

Na mesma linha, o assessor jurídico da presidência da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Luís Fernando Pires, destaca que o setor vive um ambiente crescente de insegurança jurídica, que se soma às dificuldades econômicas. Segundo ele, a nova gestão da entidade tem como prioridade ampliar o diálogo com a sociedade urbana.

“Precisamos mostrar ao público urbano a importância econômica, social e ambiental da agricultura. O Brasil tem uma das legislações ambientais mais restritivas do mundo e uma das agriculturas mais sustentáveis, mas ainda sofre ataques e distorções”, afirmou Pires.

O assessor jurídico aponta o endividamento como um dos principais entraves atuais, além da relativização do direito de propriedade. “Estamos muito preocupados com a insegurança jurídica crescente, com questões fundiárias, marco temporal e decisões que colocam em risco gerações de trabalho no campo”, observou.

Sobre o acordo Mercosul–União Europeia, Pires reconhece oportunidades, mas alerta para riscos em cadeias específicas. “É um mercado de mais de 700 milhões de pessoas, o que é positivo. Mas setores como leite, uva e vinho podem sofrer muito se não houver medidas de compensação, porque lá existem subsídios e aqui enfrentamos auto-tributação elevada”, ponderou.

Crédito restrito e desafios de acesso à inovação

No campo, a percepção de restrição financeira também impacta o acesso à tecnologia. A produtora rural Angela Van Lieshout avalia que, apesar dos avanços tecnológicos disponíveis, muitos produtores encontram barreiras concretas para inovar.

Segundo ela, o atual cenário do agronegócio, marcado por recuperações judiciais e maior rigor das instituições financeiras, tornou o acesso a recursos ainda mais complexo. Angela ressalta que hoje não existem linhas específicas para investimentos em softwares de gestão e sistemas tecnológicos, o que dificulta a adoção dessas ferramentas, especialmente por pequenos e médios produtores.

Mesmo diante das limitações, ela acredita que o investimento em tecnologia é inevitável. “É caro, o retorno não é imediato, mas quem não investir vai ficar para trás”, afirma.

O produtor rural e empresário Fernando Stapelbroek Trennepohl reforça que o cenário enfrentado pelo agro brasileiro em 2026 é resultado de uma combinação de fatores políticos, econômicos e climáticos. Ele avalia que, mais do que apoio, o setor precisa de previsibilidade e menor interferência.

“A agricultura brasileira não precisa tanto de ajuda. Se não nos atrapalharem, já estaria ótimo. O problema é que estamos sendo constantemente julgados e penalizados, especialmente na questão ambiental”, afirmou.

Trennepohl lembra que o Rio Grande do Sul foi especialmente prejudicado nos últimos anos. “Enquanto outros estados aproveitaram o bom momento da soja, aqui tivemos safra frustrada e não conseguimos fazer caixa. Quando o preço estava alto, nós não tínhamos produto para vender”, relatou.

Eleições 2026 e o peso do Congresso

Na avaliação do produtor, o processo eleitoral de 2026 terá peso decisivo para o setor, especialmente no Legislativo. “Mais importante do que a eleição do Executivo é uma mudança no Congresso e no Senado, para equilibrar decisões e devolver segurança jurídica ao país”, opinou.

A leitura sobre o peso das eleições também é compartilhada pelo deputado federal Ubiratan Sanderson, que classifica o pleito como um dos mais importantes dos últimos anos para o setor produtivo. Segundo ele, o cenário atual exige mobilização política para alterar a composição do Congresso Nacional e do Senado.

Sanderson afirma que, em sua avaliação, o governo federal não tem prestigiado o agronegócio e que produtores de grãos, proteína animal e leite enfrentam dificuldades ampliadas por falta de linhas de crédito específicas. Ele sustenta que o financiamento para quem produz alimentos não pode ser equiparado ao crédito para consumo, sob as mesmas taxas de juros.

O parlamentar também critica o que chama de expansão do Estado e aumento da carga tributária, especialmente após a aprovação da reforma tributária. Para ele, a elevação de impostos e o custo financeiro elevado pressionam ainda mais os produtores rurais.

Ao comentar medidas ambientais em discussão, Sanderson cita preocupação com propostas de ampliação de áreas de conservação, como a possibilidade de transformar extensas áreas nas Missões em unidades de preservação permanente, o que, segundo ele, pode afetar propriedades conduzidas por várias gerações.

O papel político da Expodireto

Ao tratar especificamente da Expodireto, Sanderson afirmou que a feira é um dos principais palcos nacionais de debate sobre o futuro do agronegócio e que precisa ser compreendida também sob a ótica política. “A Expodireto não é apenas uma vitrine de máquinas e tecnologia. É um espaço de construção de ideias e de definição de rumos para o país”, declarou. 

Para ele, mais do que vitrine tecnológica, o evento se consolida como ambiente estratégico de articulação institucional, onde produtores, entidades e parlamentares podem alinhar pautas estruturais. “Se o agro não ocupar os espaços de decisão, outros ocuparão. E depois não adianta reclamar das decisões que vêm de Brasília”, afirmou. 

O deputado defende que o setor amplie sua participação no debate público, especialmente em ano eleitoral, para garantir que temas como crédito rural, segurança jurídica e política ambiental estejam no centro das decisões nacionais.

Resiliência tecnológica diante de juros elevados

Mesmo diante das dificuldades, o produtor Fernando Trennepohl destaca a capacidade de resiliência e o avanço tecnológico do agro brasileiro. “O nível de tecnologia das nossas lavouras se equipara, e às vezes supera, o de países de primeiro mundo. Isso nos permite aumentar produtividade e racionalizar custos”, afirmou.

O olhar econômico é complementado pelo diretor operacional da Stara Financeira, Cristian Abreu, que projeta 2026 como um ano de cautela, marcado por juros elevados e volatilidade. “A Selic está em 15%, o maior patamar dos últimos 20 anos. Mesmo com alguma expectativa de queda, o custo financeiro ainda é muito alto”, explicou.

Abreu avalia que o cenário fiscal do país limita uma redução mais significativa dos juros. “O Brasil tem uma dívida em torno de 79% do PIB. Sem uma reforma administrativa, o custo do dinheiro seguirá alto, afetando margens e investimentos”, observou.

Apesar disso, o diretor vê na perspectiva de uma boa safra nacional um fator de alívio. “As lavouras estão com desenvolvimento muito positivo em várias regiões do Brasil. Isso não elimina os desafios, mas traz um alento importante ao produtor”, destacou.

Para o setor financeiro, a busca por alternativas de crédito adequadas será fundamental. “Mesmo com juros altos, trabalhamos com linhas equalizadas, prazos de carência e soluções que se ajustem à realidade do produtor”, concluiu.

Diante desse cenário, lideranças do campo defendem que 2026 seja um ano de decisões estruturais, capazes de enfrentar o endividamento, garantir segurança jurídica e criar políticas de Estado de longo prazo.