Como o avanço dos drones desafia sistemas de defesa e muda estratégias de guerra
06 de março de 2026
Por décadas, infantaria, tanques, artilharia e força aérea concentraram o protagonismo nos conflitos armados. Nos últimos anos, porém, um novo elemento passou a integrar de forma cada vez mais relevante as estratégias militares: os drones, veículos não tripulados capazes de realizar vigilância, identificar alvos e executar ataques a distância.
Essas aeronaves operam sem piloto a bordo e podem ser controladas remotamente por operadores humanos ou atuar com diferentes níveis de autonomia por meio de sistemas de inteligência artificial. Inicialmente empregadas sobretudo em missões de vigilância e reconhecimento, passaram a ser utilizadas também em operações ofensivas.
A guerra desencadeada pela invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, evidenciou esse uso. Segundo autoridades ucranianas, quase 80% dos danos registrados na linha de frente são atribuídos a drones. Mais recentemente, o tema voltou ao centro das atenções com a escalada do confronto envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã.
Especialistas apontam, no entanto, que essa dinâmica já vinha sendo observada em conflitos anteriores, como na Segunda Guerra do Nagorno-Karabakh, quando o uso intensivo de drones armados e munições vagantes pelo Azerbaijão teve impacto significativo nas operações contra as forças da Armênia.
Drones ampliam capacidades, mas efeito depende da integração com outras forças
Para Augusto César Dall’Agnol, doutor em Estudos Estratégicos Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), a principal mudança trazida pelos drones ocorre sobretudo no nível tático e operacional da guerra.
“A guerra na Ucrânia mostrou que drones relativamente baratos podem ser empregados em larga escala para vigilância constante do campo de batalha, correção de artilharia e ataques de precisão”, afirma.
Segundo ele, embora o debate público muitas vezes trate a tecnologia como uma revolução militar completa, o impacto depende da forma como ela é incorporada às estruturas militares.
“A eficácia militar continua dependendo sobretudo da integração entre diferentes sistemas de armas, doutrina e treinamento, e não apenas da introdução de uma tecnologia isolada”, explica.
Drones baratos e novas estratégias de defesa
Além das mudanças táticas, o uso crescente desses equipamentos também chama atenção pelo impacto econômico nas operações militares. A proliferação de drones tem levado países a repensar seus sistemas de defesa antiaérea, já que nem sempre é economicamente viável utilizar mísseis de alto custo para derrubar equipamentos muito mais baratos.
Segundo o pesquisador, o Irã tem utilizado em grande quantidade drones do modelo Shahed-136 para saturar sistemas de defesa aérea e elevar o custo das operações para seus adversários. Esses equipamentos podem custar entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, enquanto os mísseis interceptadores usados para abatê-los podem chegar a milhões de dólares por unidade.
Essa lógica operacional acabou influenciando o desenvolvimento de sistemas semelhantes por outros países.
“Os próprios Estados Unidos passaram a empregar drones de ataque de baixo custo inspirados nesse modelo, como o Low-cost Uncrewed Combat Attack System [“Sistema Não Tripulado de Baixo Custo de Ataque e Combate”, em português]. Projetado para ser produzido em grande escala e usado como drone kamikaze, o sistema segue a mesma lógica operacional dos Shahed utilizados na Ucrânia”, afirma.
Principais tipos de drones usados em guerras
- Reconhecimento e vigilância: monitoram territórios e identificam alvos com câmeras e sensores.
- Drones de combate: aeronaves não tripuladas armadas usadas em ataques de precisão.
- Drones kamikaze: também chamados de munições vagantes, ficam sobrevoando uma área até atingir o alvo e se autodestroem.
- FPV (visão em primeira pessoa): drones pequenos, muitas vezes comerciais adaptados para carregar explosivos e guiados remotamente.
- Drones de logística: usados para transportar munições, alimentos e equipamentos para tropas em áreas de risco.
Avanço da inteligência artificial em drones militares e seus limites
Outra tendência é a incorporação gradual de sistemas de inteligência artificial aos drones. Empresas ucranianas, como a The Fourth Law (TFL), desenvolveram sistemas que permitem que a IA assuma o controle do equipamento nos momentos finais do ataque, especialmente quando a conexão com o operador é perdida. A tecnologia pode ajudar a manter a rota e aumentar a precisão no momento do impacto.
No início da guerra, muitos drones operavam por conexão via rádio, vulnerável a interferências eletrônicas. Como alternativa, a Rússia passou a usar drones ligados aos operadores por cabos de fibra óptica, que podem se estender por quilômetros e são difíceis de interceptar.
Na prática, porém, Dall’Agnol destaca que a maior parte das aplicações atuais de inteligência artificial ainda envolve a automação de tarefas específicas, e não autonomia completa na decisão de atacar.
Algoritmos podem ser usados para reconhecimento de padrões em imagens, navegação em ambientes com interferência eletrônica, seleção preliminar de alvos ou coordenação entre múltiplos sistemas não tripulados.
Avaliação semelhante é feita por especialistas do setor. A analista militar Katerina Bondar afirmou à AFP que uma autonomia completa dos drones ainda parece distante. Segundo ela, a inteligência artificial tende a desempenhar sobretudo um “papel de assistência”, sem substituir o controle humano.
O ex-diretor do Google, Eric Schmidt, que hoje dirige a empresa SwiftBeat, fornecedora de drones com IA para a Ucrânia,, também considera “ingênuo” imaginar equipamentos totalmente automatizados.
Na linha de frente, também se avalia que os soldados continuarão sendo indispensáveis. “Enquanto você não tiver fincado a bandeira você mesmo, com as próprias mãos, e tomado posição, não se pode considerar que ela seja sua”, diz Kolesso, um soldado de infantaria ucraniano que combate no leste da Ucrânia.
Fonte: Correio do Povo