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Cinco setores da economia gaúcha que podem sentir os efeitos da crise no Oriente Médio

Economia

04 de março de 2026

Cinco setores da economia gaúcha que podem sentir os efeitos da crise no Oriente Médio
Escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã desencadeou uma nova crise no Oriente Médio
Foto : Atta Kenare / AFP

A escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã desencadeou uma nova crise no Oriente Médio e colocou a economia global em alerta. O principal foco do mercado é a interrupção do Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo.

Pela sua posição estratégica, o estreito é rota essencial para o abastecimento de Ásia, Europa e Américas. A paralisação do fluxo representa um choque imediato na oferta de energia e pressiona indústrias, transporte e mercados financeiros.

“Imagina que, de uma hora para outra, diminuímos em 20% o suprimento de energia do mundo. Isso é muito forte. Significa que as organizações, as indústrias terão menos energia”, afirma o economista Moisés Waismann, professor da UniLaSalle.

A instabilidade já elevou fretes e seguros internacionais e alterou rotas aéreas. Na prática, isso encarece importações e reduz a competitividade das exportações brasileiras. Segundo o economista, os reflexos no Rio Grande do Sul tendem a acompanhar o cenário nacional, já que a economia gaúcha está integrada às cadeias globais.

1. Agronegócio pode sofrer maiores impactos

O agronegócio é o principal ponto de atenção. Parte dos fertilizantes nitrogenados, como a ureia, depende diretamente do preço do gás e do petróleo. Com energia mais cara, o custo de produção de produtos como soja e milho sobe. Como esses grãos são base da ração animal, há efeito em cadeia sobre carnes, leite e ovos.

Além disso, o diesel mais caro pressiona o frete rodoviário até os portos, reduzindo as margens do produtor. Waismann resume como “penalização dupla”: custo maior na lavoura e no transporte. Caso a instabilidade se prolongue e afete o comércio internacional, o Estado pode registrar menor entrada de dólares, com efeitos sobre renda e arrecadação.

Especialistas ouvidos pelo Correio do Povo avaliam que o cenário exige cautela e monitoramento constante, já que os efeitos econômicos tendem a depender da duração do conflito e da reação dos mercados internacionais.

Outros setores sensíveis

2. Implementos agrícolas e máquinas

O setor gaúcho de máquinas e implementos agrícolas é pressionado por dois movimentos. No cenário internacional, o esforço de guerra eleva a demanda por aço, insumo essencial para a indústria, o que pode reduzir a oferta e aumentar preços. Como a produção depende fortemente de energia, a alta do petróleo encarece ainda mais a matéria-prima.

Além disso, com margens mais apertadas no campo, produtores tendem a adiar a compra de equipamentos. Isso pode desacelerar a indústria metalmecânica, especialmente no noroeste do Estado.

3. Setor coureiro-calçadista

Tradicionalmente voltado à exportação, o setor calçadista está entre os mais expostos às oscilações externas.

O impacto ocorre em três frentes: na logística internacional, com fretes e seguros mais caros que reduzem a competitividade do produto gaúcho no exterior; na estrutura de custos, já que parte dos componentes deriva do petróleo, o que pressiona a produção; e no consumo doméstico, pois, em um cenário de alta de alimentos e combustíveis, as famílias tendem a priorizar despesas essenciais, reduzindo a demanda por calçados.

4. Vestuário

O setor de vestuário enfrenta dinâmica semelhante à do calçadista, porém com maior dependência do mercado interno. Em um cenário de inflação de custos, o orçamento das famílias é direcionado a itens básicos, como alimentação e transporte, reduzindo a renda disponível para roupas.

Com isso, o comércio desacelera, estoques aumentam e a produção é ajustada. Pequenos lojistas e confecções tendem a sentir rapidamente o impacto, especialmente na Região Metropolitana de Porto Alegre.

5. Polo petroquímico

O efeito é mais direto no polo petroquímico, já que o petróleo é base da cadeia, influenciando desde resinas plásticas até insumos industriais utilizados por diversos segmentos.

Além da volatilidade do barril, a instabilidade em rotas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, pressiona custos logísticos e amplia a incerteza nos contratos. Com isso, margens ficam mais estreitas e investimentos podem ser adiados.

Inflação de custos e o debate sobre juros

Waismann classifica o cenário como típico de inflação de custos, impulsionada pelo encarecimento da energia, combustíveis e logística internacional. Nesse caso, a alta de preços não decorre de excesso de demanda, mas de restrições na oferta.

Por isso, ele avalia que um aumento da taxa básica de juros teria efeito limitado sobre a causa do problema. Segundo o economista, juros mais altos são mais eficazes quando a inflação está ligada ao consumo aquecido — o que não caracteriza um choque externo provocado por guerra.

Ele pondera que, se a pressão sobre petróleo e câmbio persistir, o Banco Central pode optar por manter juros elevados por mais tempo para conter efeitos secundários, como o repasse aos preços. Ainda assim, ressalta que elevar ainda mais a taxa poderia desacelerar a atividade econômica sem resolver a origem do encarecimento.

Fonte: Correio do Povo