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Fevereiro Laranja: atenção aos sinais do corpo é decisiva para o diagnóstico precoce da leucemia

Saúde

10 de fevereiro de 2026

Fevereiro Laranja: atenção aos sinais do corpo é decisiva para o diagnóstico precoce da leucemia
Principal identificador da doença é por alterações no hemograma
Foto : Mauro Schaefer

Quando tinha apenas 20 anos, a zeladora Paola Ayres Pogorzelski percebeu sinais que indicavam que algo não ia bem com a sua saúde. Era abril de 2021 e a moradora de Capão da Canoa sentia cansaço intenso, náuseas frequentes e, logo após, percebeu caroços no pescoço e na nuca.

Em busca de respostas, realizou uma ecografia, que indicou linfonodos aumentados. “Nunca me pediram um hemograma completo. Só pediram a ecografia, e o hemograma era muito importante para já ter descoberto antes”, afirma. Seu quadro de saúde se agravou rapidamente. “Comecei a ficar tonta, a enxergar tudo turvo, senti muita dor no meio da cabeça”, relata. Ao todo, os sintomas se estenderam por cerca de um mês. Quando realizou finalmente um hemograma, exame fundamental para investigação mais ampla, apresentou alterações em seu sangue.

Após descobrir que se tratava de leucemia linfoblástica aguda, precisou ser transferida para o Hospital de Clínicas, em Porto Alegre. “Foi tudo muito rápido, um baque muito grande. Eu não entendia a dimensão do que aquilo ia ser para mim”, conta. Paola admite que tinha pouco conhecimento sobre a doença. “A gente ouve falar em câncer, mas leucemia quase não se fala. Eu não sabia como ia ser para mim”, diz.

Essas são umas das principais questões sobre a leucemiaela não apresenta sintomas específicos, mas sim sinais que podem ser confundidos com outros problemas, o que dificulta a identificação precoce. Além disso, muitos pacientes podem permanecer assintomáticos por anos. Ainda, é uma doença relativamente rara: cerca de 1 caso a cada 150 mil pessoas no mundo. Mas, apesar de pouco frequente, tem alto impacto quando ocorre. Ainda que menor do que nos últimos anos, o Rio Grande do Sul registrou, em 2025, 582 óbitos e 362 novos casos.

Mortalidade e morbidade hospitalar da leucemia no Rio Grande do Sul

202320242025*
Internações hospitalares2.3812.2501.996
Taxa de internação hospitalar (/100 mil hab)20,7619,6217,41
Óbitos616618582
Coeficiente de mortalidade
(/100 mil hab)
5,375,395,08
Novos casos649516362

*Dados preliminares
Fonte: Secretaria Estadual da Saúde (SES), por meio do Painel de monitoramento da morbimortalidade por Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) no RS e do Painel de Oncologia.

A doença grave pode evoluir rapidamente e exige atenção imediata, lembra Claudia Caceres Astigarraga, chefe do Serviço de Hematologia Clínica e Terapia Celular do Hospital de Clínicas, local em que Paola fez todo o tratamento. O principal identificador é por alterações no hemograma. “O hemograma não diagnostica, mas te faz pensar”, resume a médica.

Elezangela Gomes da Silva, hoje com 38 anos, antes de ser diagnosticada em 2017, também apresentou sintomas que, no começo, pareciam banais. Foram sangramentos no nariz e um cansaço fora do comum, que ela acreditou que estivessem relacionados à rotina intensa de trabalho e ao calor excessivo. O seu quadro, porém, se agravou em questão de dias. No seu corpo, apareceram manchas semelhantes a hametomas. “Eram muitas manchas roxas. Só que não doía, não sentia dor”.

Ela fez exames de sangue, que apontaram uma queda acentuada nas plaquetas, porém, os sintomas pioraram. Ela sempre teve leve anemia, quando criança e na gestação. Mas nunca imaginou que poderia, um dia, ter uma doença que nem conhecia. “Não sabia sobre a doença em si. Só por relatos das pessoas”, conta.

A agilidade na avaliação médica é fundamental para definir o tipo da doença e iniciar o tratamento o quanto antes. A campanha nacional Fevereiro Laranja estimula, anualmente, a conscientização sobre as leucemias e a importância da doação de medula óssea.

O que é a leucemia

A leucemia é um câncer da medula óssea, que tem início nas células-tronco, as que se reproduzem até formar as células maduras que vão para corrente sanguínea, nas hemácias, plaquetas e leucócitos. Quando há um descontrole, elas não conseguem se reproduzir e a produção de células sanguíneas saudáveis fica comprometida.

“Os sintomas mais comuns que a gente deve ficar atento são fraqueza, dores no corpo, gânglios aumentados, febre manchas roxas ou sangramentos, dores nas pernas e dor e aumento do baço, órgão que fica no abdômen e que filtra o sangue”, explica Jalise Wolski de Oliveira, médica hematologista do Hospital São Lucas da PUCRS.

A doença pode ser aguda ou crônica, com características, sintomas e tratamentos distintos. É dividida em quatro tipos: leucemia mieloide aguda (LMA) ou linfoide aguda (LLA), e leucemia mieloide crônica (LMC) ou leucemia linfóide crônica (LLC), dependendo do tipo de célula envolvida.

Na leucemia aguda, a mais grave, ocorre uma mutação nas células-tronco, que dão origem ao sistema imunológico e às hemácias, que auxiliam na oxigenação dos tecidos e nas defesas de combate às infecções. “Justamente por isso que os sintomas estão relacionados a isso, o cansaço, o sangramento e as infecções de repetição”, explica a médica do Clínicas. Ela se desenvolve de forma rápida e, se não tratada, pode levar à morte em um período de seis semanas a seis meses.

Já a leucemia crônica apresenta evolução lenta, e os pacientes podem ser assintomáticos. Elas podem ser tratadas com medicação oral mas, em muitos casos, as pessoas convivem com a doença por anos sem necessidade de tratamento. Um exemplo é a leucemia linfóide crônica, mais comum em idosos, que frequentemente é descoberta de forma incidental, durante exames de sangue solicitados por outros motivos, permitindo que muitos pacientes permaneçam assintomáticos por longos períodos. Quando indicado, o tratamento costuma ser feito com medicação oral.

Paola passou quase um ano internada no Clínicas, com períodos curtos em casa, que variavam de acordo com a resposta do corpo ao tratamento, que foi baseado em quimioterapia. Ainda, enfrentou uma complicação grave devido à baixa imunidade. Desenvolveu pneumonia, pneumotórax e síndrome respiratória aguda, mas conseguiu se recuperar. Atualmente, desde 2025, está em remissão e realiza exames de controle anual.

Laboratório de Hematologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre

Tratamento apresenta avanços

O tratamento é feito, na maior parte dos casos, com quimioterapia, seguido ou não de transplante de medula óssea. Com o avanço da tecnologia, a curabilidade de leucemia aguda tem sido cada vez mais eficaz.

Leucemias agudas tinham alto grau de mortalidade. Nos anos 80 e início dos 90, essa era uma doença de uma mortalidade de 80%, 85%”. Hoje em dia, com a presença do chamado ácido transretinóico, uma medicação geral utilizada na quimioterapia, os pacientes têm até 90% de chances de sobreviver. “Isso mudou a história dessas doenças”, diz Claudia.

Para a leucemia aguda, existem novas drogas, inclusive via oral, que trazem boa resposta ao tratamento, explica a médica hematologista do Hospital São Lucas. Há, também, algumas terapias alvo, com medicações inibidoras da tirosina quinase, para as leucemias mielóide crônicas, ou a CAR-T, uma terapia celular avançada, utilizada quando a quimioterapia não resolve completamente as doenças.

“A gente está em um grau de tecnologia no mundo todo, em que está conseguindo, além da quimioterapia, dos modificadores biológicos, das novas linhas de remédio com terapia alvo, existe já no mundo terapias em que a gente retira células dessa doença, com foco desse paciente doente e modifica eles geneticamente para que eles tratam a própria doença, como a CAR-T, e outras terapias nesse sentido”, complementa a médica do Clínicas.

A importância do diagnóstico precoce

Ao refletir sobre a própria trajetória, Paola, hoje fazendo apenas exames e consultas anuais para acompanhamento da doença, destaca a importância do diagnóstico precoce, especialmente por meio de exames que são simples e podem auxiliar a identificar a leucemia precocemente. “O hemograma muitas vezes acaba sendo R$ 30 pagando particular, muitas pessoas, às vezes, não gostam de fazer pelo processo da demora. Mas acaba sendo muito barato descobrir um diagnóstico cedo”, ressalta. “O médico falou que, se talvez tivessem descoberto um pouco mais cedo, teria mudado meu caso clínico. Quando cheguei, já estava tudo mais avançado”, conclui.

“Hoje eu presto atenção. Se estiver muito cansada, até mesmo emagrecendo fora do normal, ou tiver qualquer sangramento, seja na gengiva, no nariz, ou até mesmo minha menstruação muito constante, já faço o check-up, fico em alerta”, completa Elezangela. “Alerto quem está próximo de mim, porque a gente não quer que ninguém passe o que a gente passou”.

A campanha tem alcançado pessoas que possam se envolver na conscientização da doação da medula óssea, lembra a médica hematologista do São Lucas. O cadastro é feito com amostra de sangue em hemocentros, sendo necessário ter entre 18 e 35 anos. “Os pacientes conseguem chegar até um transplante de medula óssea e, assim, curar a doença. Isso é uma mudança muito importante nos últimos tempos que a gente consegue submeter os pacientes que precisam ao transplante, porque as pessoas têm mais consciência da doença e costumam ser doadoras”.

Fonte: Correio do Povo