Após perder espaço na Venezuela, Rússia intensifica aproximação com o Brasil na América Latina
06 de fevereiro de 2026
Os debates e resoluções de uma reunião de alto escalão entre os governos do Brasil e da Rússia, realizada na quinta-feira (5), indicam uma mudança na estratégia de política externa de Moscou na América Latina. Após perder influência na Venezuela e enfrentar dificuldades em Cuba, o governo russo passou a concentrar esforços no Brasil como principal plataforma de atuação na região, segundo analistas ouvidos pela reportagem.
A perda de espaço ocorreu após a captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro, por forças americanas, o que praticamente encerrou a influência russa no país. Cuba, outro aliado histórico de Moscou, enfrenta restrições severas no abastecimento de petróleo e dificuldades para manter a economia em funcionamento.
Nesse cenário, analistas avaliam que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a ocupar papel central na estratégia russa para a América Latina. Durante a 8ª Reunião da Comissão Brasil-Rússia de Alto Nível de Cooperação (CAN), o primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, classificou o Brasil como o principal parceiro econômico da Rússia na região, responsável por cerca de metade do comércio bilateral com a América Latina.
Para o mestre em Relações Internacionais pela UFRGS, Cezar Roedel, a declaração conjunta da reunião sinaliza uma aproximação maior do que a esperada e reforça uma tendência observada desde o início do atual governo. Segundo ele, o Brasil tem demonstrado alinhamento crescente com Moscou, inclusive em temas sensíveis do cenário internacional.
A reunião alterou a rotina diplomática de Brasília pela dimensão da delegação russa, composta pelo primeiro-ministro, o vice-presidente, ministros, vice-ministros, empresários e dezenas de profissionais de imprensa, transportados em aeronaves oficiais usadas pelo presidente Vladimir Putin. Durante o encontro, a Rússia ofereceu ampliar a cooperação com o Brasil em áreas estratégicas, como energia nuclear, exploração espacial, segurança cibernética, ciência, tecnologia e apoio diplomático, incluindo a defesa de uma vaga permanente brasileira no Conselho de Segurança da ONU.
Especialistas alertam, no entanto, para os riscos envolvidos em cooperações em setores considerados sensíveis. Roedel destaca o perigo do chamado “uso dual” de tecnologias, com possíveis aplicações civis e militares, além de vulnerabilidades relacionadas à segurança de dados e à propriedade intelectual. Já Adriano Gianturco, doutor em Ciência Política e coordenador do curso de Relações Internacionais do IBMEC, avalia que promessas de transferência tecnológica tendem a ter caráter mais retórico do que prático.
No campo comercial, o encontro reforçou o interesse no fornecimento de fertilizantes russos ao Brasil e na exportação de carnes brasileiras para a Rússia, eixo considerado o mais pragmático da relação bilateral. Em 2024, a Rússia respondeu por mais de 27% das importações brasileiras de fertilizantes, embora tenha perdido espaço recentemente para a China, o que intensificou a disputa geopolítica pelo mercado brasileiro.
A declaração conjunta também abordou a cooperação no âmbito do BRICS, com destaque para o debate sobre sistemas alternativos de pagamento ao dólar. Para analistas, a agenda reforça o discurso brasileiro em defesa de um mundo multipolar, mas pode gerar riscos à integração financeira do país e à confiança de investidores, diante da ausência de padrões consolidados de governança e segurança jurídica.