Um ano e oito meses depois da enchente, atingidos ainda buscam por novas moradias e obras de reconstrução
03 de janeiro de 2026
Um ano e oito meses depois que a enchente atingiu o Rio Grande do Sul, as marcas ainda estão visíveis em locais que parece que pararam no tempo, e que mostram a fragilidade das cidades diante da crise climática. Estruturas que eram casas ainda estão, hoje, sem telhado, janela e portas, restando apenas partes das paredes com a marca de cor marrom e entulhos acumulados. Em uma das casas abandonadas, na Ilha das Flores, é possível ver, pela abertura do que parecia ser uma janela, uma cama de casal atravessada, como se tivesse sido jogada no local. As comunidades permanecem tentando se reerguer do episódio de diferentes maneiras. Enquanto alguns moradores aguardam por obras de reconstrução, outros buscam por novas moradias.

Região das Ilhas
Na Região das Ilhas, no bairro Arquipélago, em Porto Alegre, os relatos são de pessoas que buscam deixar suas casas por meio do programa Compra Assistida, que permite adquirir um novo imóvel em outro município com recursos destinados pelo governo federal. O morador da Ilha dos Marinheiros, Dercio Capes, de 59 anos, é um dos que chegou a assinar o contrato para a aquisição da sua nova casa. Ele pretende ir com a sua esposa, Mari Regina Bueno Capes, de 56 anos, para Alvorada. “Só falta a Caixa me dar a chave. Mas não me deram prazo”, diz. Sem pressa, ele está aguardando o processo.
A esposa é a que mais quer sair da região, que está se esvaziando, comenta Capes. “Ali, todos já foram embora”, diz, olhando para os lados e apontando, casa por casa, onde seus vizinhos já não moram mais.
De acordo com a última atualização do Departamento Municipal de Habitação (Demhab), de 12 de dezembro, foram realizados 1.547 contratos registrados na região das Ilhas, e outros 103 foram assinados. São 137 casos que estão no prazo para escolher o imóvel. Ainda, 227 pessoas perderam o prazo para escolha do imóvel, e serão encaminhadas a empreendimentos do governo federal. Duas pessoas desistiram da inscrição ao programa.
Em 14 de dezembro, um caminhão estava estacionado em frente à casa que Maisa de Oliveira Araújo, de 34 anos, na rua do Pescador, onde morou por 30 anos. Foi o dia em que ela, depois de um ano de espera, conseguiu se mudar com seu marido, Adilson Martins e seu filho, João Miguel para Guaíba após adquirir uma casa por meio do programa Compra Assistida.
Um misto de emoções é o que representa a saída do lugar onde ela cresceu, resume. “Estou triste, porque moro aqui a vida toda, sabe? Mas só em saber que também não vou mais perder as coisas, não vou mais me preocupar com a questão da água, é um alívio”, diz. Seu cunhado já morava no município, e auxiliou ela com a mudança. Sua mãe, Célia Lordes, de 67 anos, também irá se mudar em breve para a mesma cidade, no bairro Pedras Brancas. Ela convivia desde pequena com a água chegando no pátio da sua casa. “Fazia parte da nossa rotina, mas a cada ano estava pior”, diz.
Maisa lembra que muitos moradores que ficaram na ilha vivem da pesca. “Quero ver o que eles vão fazer para se reinventar fora daqui. É muito difícil”, diz. “Tu vês que a pessoa está indo embora não porque quer, mas porque é obrigada, entendeu? Não tem mais o que fazer. Se a água vem daquele tamanho, a tendência é só piorar todo ano. Não vai diminuir”, reflete. Há, também, os casos de moradores que querem sair da região, mas ainda não conseguiram adquirir sua casa por meio do programa federal.
Enquanto alguns moradores querem sair da região, outros estão à mercê de auxílios para conseguir reconstruir sua vida. A comerciante Ana Cristina Gonçalves dos Passos, moradora da rua do Pescador, está vivendo um dilema sobre o destino da sua moradia. A comerciante foi contemplada no programa Compra Assistida, mas, caso vá para outro lugar, não poderá levar seu mercado, sua principal fonte de renda. “Estou esperando para ver no que que vai dar, e para ver se vão querer me indenizar aqui. Como é que eu vou colocar minhas coisas todas dentro de um apartamento pequenininho?”, questiona.
No entanto, a situação também é preocupante caso ela fique. Quem olha de longe, imagina que o mercado possa estar fechado, porque não aparenta movimento. Isso porque quase não aparecem consumidores, já que a rua (e a região) tem se esvaziado. “Está pior ainda, porque agora saiu todo mundo aqui da ilha. Então tu não vende, não tem cliente”, diz. Há meses, o movimento está fraco.

O motivo da baixa clientela, ela acredita, também se dá porque voluntários da igreja e da escola local entregam quentinhas para os moradores diariamente, o que diminui a busca por mais alimentos. “Para te dizer, eu só tenho vendido cachaça e refris fora do gelo”, lamenta a moradora. Seu freezer, que tinha comprado após perder o antigo na enchente de maio de 2024, também estragou, e ela ainda não teve condições de comprar outro. Sua casa também está com as obras de reconstrução paralisadas, já que não sabe qual será seu destino, e se vale a pena continuar ali.
Ao participar de um mutirão para conclusão de análises do programa, ela ouviu que, ao assinar o contrato para a casa, deveria entregar o mercado junto. “Aí eu disse: ‘mas eu sobrevivo dali. Meu esposo está desempregado, eu também. Perdi tudo na enchente. Porque eu não perdi na enchente, os ladrões levaram”. Ana tem sobrevivido a base de remédios para depressão e ansiedade. Ela tem esperança que consiga sair da situação com pelo menos uma indenização.
Eldorado do Sul
A mesma situação de esvaziamento é observada pelos moradores de Eldorado do Sul, como na avenida Dique, considerada a principal rua a primeiro alagar e por último escoar. A moradora Maria Neli Andersen deixará sua moradia após 24 anos, e irá para Porto Alegre. “Eu vou embora só porque já não tenho mais idade para enfrentar a água pelo pescoço. Quantas vezes saí com a água pelo pescoço daqui?”, diz.
Ela decidiu deixar a casa depois de passar pela última enchente, em junho de 2025, quando precisou ficar um mês abrigando-se na casa do seu neto, no bairro Centro Novo. “De uma hora para a outra, até o meu quarto estava cheio e eu tive que correr. Levou dias para baixar de novo”, lembra.
A decisão de sair não foi fácil, mas voltava toda a vez que olhava as marcas da água e do barro deixadas pela enchente na casa dos vizinhos. Eu penso: ‘não vai vir mais’, mas eu olho para as casas e ainda tem as marcas. Ali teve 1 metro acima da minha casa”, diz, apontando para uma residência de dois pisos.
Demorou um pouco, mas agora ela diz estar acostumada com a ideia de deixar o espaço, onde cultivou muitas memórias. “A gente pega um apego por eles. É os vizinhos, é as crianças, é tudo. Quando eu vim para cá, vim para não sair mais daqui, enquanto eu vivesse eu queria ficar aqui. Mas aí foi um embora, foi outro embora, e eu ficando. Estou disposta a enfrentar lá fora de novo”, diz.
De acordo com informações da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedur), que acompanha os estudos dos anteprojetos do sistema de proteção contra cheias de Eldorado do Sul, uma visita técnica realizada no final de novembro confirmou a nova etapa atual de revisão, que tem investimento de R$ 3,75 milhões, e a previsão de entrega do anteprojeto em fevereiro de 2026.
As obras abrangem a Bacia do Baixo Jacuí e incluem a construção de casas de bombas de drenagem, redes de macrodrenagem, canais de descarga, drenos coletores e um dique de 8,6 quilômetros.

Fonte: Correio do Povo /