Novas perspectivas para o etanol: muito além do uso automotivo
02 de janeiro de 2026
A eletrificação gradual da frota de veículos leves e a expectativa de desaceleração do consumo global de petróleo entre as décadas de 2030 e 2040 costumam alimentar dúvidas sobre o futuro do etanol.
Em um cenário de menor consumo de gasolina, a demanda pelo biocombustível poderia ser pressionada, seja na forma hidratada, usada diretamente nos veículos flex, seja como mistura obrigatória na gasolina.
Do ponto de vista econômico, a transição energética poderia limitar o crescimento do mercado tradicional de combustíveis líquidos, pressionando margens e exigindo maior eficiência e diversificação por parte dos produtores. Esse risco é real, sobretudo para cadeias excessivamente dependentes do uso automotivo.
Esse diagnóstico, porém, precisa ser relativizado à luz das tendências regulatórias e de mercado. Na prática, a mistura de etanol à gasolina vem crescendo em diferentes regiões do mundo, impulsionada por metas de descarbonização, segurança energética e redução da dependência de importações de petróleo.
Mercados maduros, como EUA e Europa, avançam gradualmente do E10 (gasolina com 10% de etanol) para o E15, enquanto economias emergentes, com destaque para a Índia, aceleram programas rumo ao E20. Nos EUA, há oferta do E85 para veículos flex em alguns estados.
No Brasil, a elevação do teor obrigatório para 30% criou uma demanda estrutural suplementar, funcionando como amortecedor frente à eletrificação parcial da frota.
Mesmo que o consumo total de gasolina se estabilize ou recue, a maior participação do etanol no blend tende a sustentar volumes, receitas e previsibilidade para o setor na próxima década.
Além do uso automotivo, o etanol começa a ganhar espaço em novos mercados energéticos com forte racional econômico. No transporte marítimo, surge como uma das rotas em avaliação para a descarbonização do bunker (combustível marítimo), ao lado de alternativas como metanol, amônia e combustíveis sintéticos.
Ainda restrita a projetos-piloto, essa aplicação depende de escala, preço relativo e regras claras de contabilização de carbono.
O biocombustível também passa a ser visto como insumo estratégico para a produção de hidrogênio de baixo carbono. A possibilidade de gerar H₂ a partir do etanol no ponto de consumo reduz desafios logísticos e pode acelerar mercados regionais, sobretudo em países com base sucroenergética consolidada.
Outro desdobramento relevante está na aviação. O etanol figura como matéria-prima potencial para combustíveis sustentáveis de aviação, por meio da rota Alcohol-to-Jet. Ela permite a produção de querosene quimicamente igual àquele produzido por fonte fóssil.
Em um setor com poucas alternativas tecnicamente maduras, essa aplicação tem o potencial de conectar o etanol a um mercado global de alto valor agregado, impulsionado por mandatos e compromissos climáticos.
Por fim, os subprodutos da cana reforçam a lógica de biorrefinaria. Bagaço e palha sustentam a cogeração de eletricidade, enquanto vinhaça e torta de filtro viabilizam biogás e biometano. Esse conjunto reduz a exposição do setor a um único mercado e fortalece o etanol como ativo estratégico da transição energética.
Fonte: CNN